O homem que escreveu 2666

Quando morreu em Julho de 2003, aos 50 anos, vítima de insuficiência hepática, Roberto Bolaño ainda era um dos segredos mais bem guardados da literatura latino-americana. Conhecido apenas por um círculo de happy few, que viam nele um herdeiro legítimo de Borges e Cortázar, lidava bem com o seu relativo anonimato. Para ele, fama e literatura eram «inimigas irreconciliáveis», como escreveu em 2666 (a sua obra-prima, em que trabalhou durante os últimos cinco anos de vida), ignorando que seria precisamente esse monumental romance, um tour de force narrativo com mais de mil páginas, a escancarar-lhe as portas de uma glória póstuma que nunca desejou.
Bolaño já recebera, em vida, alguns elogios importantes (Susan Sontag viu nele «o escritor mais influente e admirado da sua geração no mundo de língua castelhana»), mas foi o surgimento de 2666 nos EUA, no final do ano passado, com uma recepção crítica apoteótica (uma «Bolañomania», como lhe chamou o El País), que o trouxe para a primeira fila do cânone da literatura contemporânea, mesmo ao lado de Philip Roth ou W. G. Sebald. Houve até quem afirmasse que o abalo provocado por Bolaño nas fundações da literatura latino-americana se assemelha, em intensidade, ao que Gabriel García Márquez provocou, há quatro décadas, com Cem Anos de Solidão. Em intensidade, sim, assemelham-se. Mas a natureza dos sismos é muito diferente. Como bem notou Enrique Vila-Matas, a escrita de Bolaño distingue-se por ter sabido romper «com a literatura latino-americana dos galos da Amazónia e das virgens que levitam».
Em vez do realismo mágico, transformado em fórmula exótica e de efeito fácil, o escritor chileno optou por um «realismo visceral», atento ao lado mais negro da realidade, ao apocalipse económico e social do continente, com as suas injustiças e um horror que por vezes ultrapassa a imaginação mais sórdida. Em 2666, por exemplo, Bolaño inspira-se nas centenas de homicídios de mulheres que ocorreram em Ciudad Juárez (cidade mexicana que serve de molde à ficcional Santa Teresa) e faz do minucioso inventário dos crimes – com os corpos atirados para lixeiras ou para baldios atrás das maquiladoras, fábricas que recebem e montam componentes para exportação, pagando salários de miséria a trabalhadores que nem sequer se podem sindicalizar – um dos mais terríveis retratos da lógica devoradora da globalização.
Não há nesta denúncia, porém, a mínima demagogia. À sua maneira, os livros de Bolaño são políticos, porque mostram o estado caótico do mundo e os seus abismos. Nunca são é panfletários. Bolaño não esconde a sua filiação esquerdista, nem a sua simpatia pelos utópicos derrotados pela História, mas recusa-se a encaixar a complexidade do mundo no espartilho da retórica ideológica. O seu único compromisso, radical e excessivo, foi com a literatura. E o modo de vida que escolheu, errático, feito de vagabundagens, de experimentações e de uma espécie de humildade fora do tempo, só faz sentido à luz desse compromisso.


Roberto Bolaño fotografado por Daniel Mordzinski

Nascido em Santiago do Chile, a 28 de Abril de 1953, filho de um camionista (que também praticava boxe) e de uma professora, Bolaño passou a infância enterrado em livros, em parte porque era fininho, disléxico e não se dava bem com as outras crianças. Aos 15 anos, mudou-se com a família para a Cidade do México, onde viveu uma adolescência turbulenta, com muito activismo político e a fundação de um movimento poético, o «infrarrealismo», que evocará mais tarde no romance Os Detectives Selvagens. Em 1973 regressa ao Chile, entusiasmado com o ímpeto revolucionário de Salvador Allende. Quando se dá o golpe de Pinochet, Bolaño é preso por suspeita de «terrorismo», passa uma semana na prisão e só não conhece pior sorte porque dois guardas prisionais, seus antigos colegas de escola, o conseguem tirar de lá. Após nova passagem pelo México, onde cimentou a sua reputação de boémio desbocado e provocador nato, emigra para a Europa em 1977, acabando por se fixar em Espanha, onde ganhava a vida com trabalhos de ocasião. Entre outras coisas, andou nas vindimas, foi vigilante nocturno num parque de campismo e recepcionista, lavou pratos, recolheu lixo. Ofícios que lhe serviram, mais tarde, como preciosa fonte de material para as suas ficções.
Em meados dos anos 80, instalou-se em Blanes, na Costa Brava (Catalunha), onde continuou a ter empregos precários e mal pagos, mas que lhe permitiam escrever à noite. O ponto de viragem neste quotidiano hippie, pobre mas absolutamente livre, dá-se com o nascimento do primeiro filho, em 1990. Consciente das suas obrigações familiares, põe a poesia (até aí o seu principal meio de expressão literária) em segundo plano e dedica-se à ficção como forma de ganhar dinheiro, nomeadamente através do envio de trabalhos para concursos literários regionais.
Embora tenha publicado, em 1984, um pequeno romance (escrito a meias com Antoní Garcia Porta), a verdadeira estreia editorial de Bolaño dá-se apenas em 1993, aos 40 anos, com A Pista de Gelo. Na última década de vida, talvez assombrado pelo declinante estado de saúde, compensa o tempo perdido ao publicar a um ritmo febril. Até 2003, quando o fígado soçobrou antes de o seu nome chegar ao topo da lista de transplantes, surgiram 11 títulos, entre os quais Estrela Distante (de 1996, recentemente reeditado pela Teorema), Os Detectives Selvagens (1998, Teorema), Amuleto (1999), Nocturno Chileno (2000, Gótica) e Putas Asesinas (2001). Esta produção acelerada deveu-se em parte à vontade de deixar uma fonte de sustento para a família (mulher e dois filhos). Também por isso, ao organizar os materiais de 2666, sugeriu ao editor, Jorge Herralde, a publicação de cada uma das suas cinco partes como um livro autónomo. Contudo, quando Ignacio Echevarría, amigo e conselheiro literário, analisou e reviu os textos de Bolaño, após a sua morte, defendeu que «o valor literário da obra» só ficaria defendido com a publicação num único volume. Os herdeiros, mais sensatos e preocupados com a literatura do que os herdeiros de escritores costumam ser, concordaram. E o certo é que os direitos de autor, que entretanto começaram a chegar de todo o mundo, os livraram de vez da perspectiva de apertos económicos que tanto angustiava Bolaño.

Mais impressionante ainda do que a extensão da obra publicada pelo escritor chileno na última década de vida, é a extensão da obra que ficou por publicar. Além dos livros póstumos que já foram dados à estampa (2666; El secreto del mal; La Universidad desconocida; Entre paréntesis e Bolaño por el mismo), há muitos outros em lista de espera, desenterrados de uma espécie de arca pessoana, onde se acumulam dezenas de cadernos com ficções inéditas e diários. Há uns meses, o La Vanguardia noticiou a descoberta, no vasto arquivo que só agora começa a ser devidamente estudado, de dois romances: Diorama e Los sinsabores del verdadero policia o Asesinos de Sonora. Entretanto, o primeiro destes frutos escondidos vai ser publicado no próximo mês de Fevereiro. Trata-se de O Terceiro Reich, que sairá simultaneamente em Espanha, pela Anagrama, e no nosso país, pela Quetzal, editora que antes disso fará chegar às livrarias, no fim da próxima semana [amanhã], a tradução portuguesa de 2666.
Francisco José Viegas, responsável pela Quetzal, tem esperança de que a Bolañomania se estenda até cá e se prolongue com outras obras que tenciona publicar em breve: A Literatura Nazi na América e A Pista de Gelo. «O sonho de qualquer editor é poder juntar as duas coisas: grande literatura, como é Bolaño, e sucesso comercial.» Determinante mesmo foi a paixão pelos livros. 2666, por exemplo, despertou-lhe um «fascínio imediato»: «Quando se começa a ler, damo-nos conta de que é qualquer coisa de novo que está ali, uma espécie de “livro sobre todos os livros”, muito à maneira de Borges, mas rompendo com aquele tom do “mágico latino-americano”. De alguma maneira, se Macondo é o lugar fundador de uma parte dessa literatura, Santa Teresa [a cidade do romance de Bolaño] é o fim de toda a inocência, é a cidade onde o fantástico passa a ser épico.»

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]



Comentários

4 Responses to “O homem que escreveu 2666

  1. João Ventura on Setembro 25th, 2009 14:17

    Portanto, Bolaño, uma espécie de poeta desesperado, traficante ocasional em busca absoluta da origem do mal, e por ele irremediavelmente «condenado desde el principio», porque sabe que «en el fondo a felicidad es inexistente».

  2. Gerana Damulakis on Setembro 26th, 2009 1:14

    Excelente texto. Sempre, quando leio que García Márquez, de certa forma -como colocou o Enrique Vila-Matas – impregnou a literatura latina com o realismo mágico, lembro de tantos escritores que fugiram dessa linha, tais como o uruguaio Juan Carlos Onetti e muitos argentinos de primeira água, como Alan Pauls, César Aira e, repare, não estou incluindo a literatura do meu país, haja vista ser preciso muito cuidado porque, apesar do Brasil ser da América latina, teve uma colonização muito diferente (língua, costumes, influências). Portanto, muitos romperam com maestria, não apenas Bolaño. E, tal rompimento, já se deu há muito tempo. É necessário não ficarmos empacados no famoso boom do realismo mágico, foi um momento, importante momento, mas que passou.
    Recebi uma verdadeira aula sobre Bolaño. Obrigada pelo prazer proporcionado pela leitura.

  3. Ainda agora comecei a lê-lo e já não me sai da cabeça « Culturascópio on Setembro 28th, 2009 17:18

    […] deixadas por Eduarda Sousa e José Mário Silva nos seus blogues, que exponho aqui, aqui, aqui e aqui. […]

  4. Roberto Bolaño por José Mário Silva « Autores e Livros on Setembro 30th, 2009 1:06

    […] romance 2666 pela Quetzal. José Mário Silva, no excelente site Biblioteca de Babel, escreveu um esclarecedor artigo acerca da trajetória desse escritor que, a cada dia, ganha maior importância no cenário da literatura universal. Aliás, destaco aqui […]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges