O inferno dentro de quatro paredes

Pedra-de-Paciência
Autor: Atiq Rahimi
Título original: Syngué sabour – Pierre de patience
Tradução: Carlos Correia Monteiro de Oliveira
Editora: Teorema
N.º de páginas: 113
ISBN: 978-972-695-784-3
Ano de publicação: 2008

Dedicado a Nadia Anjuman, uma «poetisa afegã selvaticamente assassinada pelo marido», Pedra-de-paciência (vencedor do Prémio Goncourt 2008) pode ser lido como uma narrativa de denúncia contra os maus tratos a que são submetidas as mulheres no mundo inteiro, sobretudo nas sociedades islâmicas mas não só. Rahimi situa o livro «algures no Afeganistão ou em outro lugar», justamente para lhe conferir um carácter universal.
No primeiro romance escrito em francês – os anteriores, igualmente publicados pela Teorema (Terra e Cinzas, 2001; As Mil Casas do Sonho e do Terror, 2004), foram traduzidos do persa –, Rahimi apura a sua prosa lírica, de frases curtas e cadenciadas, desta vez posta ao serviço de uma história que se enrola sobre si mesma, à espera de explodir, um terrível huis clos construído com precisão matemática, mas por vezes exasperante, tantas são as esperas, as alucinatórias repetições de gestos e o sufoco que a narrativa induz.
Num quarto pequeno, rectangular e quase vazio, um velho esquelético, combatente de uma qualquer guerra santa, está entre a vida e a morte, depois de lhe terem enfiado uma bala na nuca. Quem cuida dele é a sua mulher: lava-o, põe-lhe colírio nos olhos, muda-lhe as embalagens de soro (e, quando este acaba, enche-as de água açucarada), lê-lhe o Corão e invoca os muitos nomes de Alá. Trata também das duas filhas, incapazes de compreender o estado do pai, antes de as entregar a uma tia. À volta da casa ouvem-se bombardeamentos e rajadas de Kalashnikov, há um vento de destruição que entra pelas janelas, mas os rituais da devoção conjugal nunca são interrompidos.
Aos poucos, a mulher começa a partilhar com aquele corpo inerte as suas memórias, os seus segredos mais íntimos e os ressentimentos acumulados ao longo dos anos. O homem que a brutalizava, o marido que sempre preferiu a frente de batalha à vida familiar, está finalmente ali, ao seu alcance, sem poder de resposta. E ela aproveita para saldar todas as contas, uma a uma, num crescendo emocional que conduz à catarse, tão intensa que lhe chega a parecer um estado de loucura ou possessão demoníaca.
Na mitologia persa, chama-se syngué sabour a uma pedra mágica, a «pedra-de-paciência», diante da qual as pessoas confessam as suas infelicidades e sofrimentos, até ao dia em que ela se desfaz, levando consigo a tristeza acumulada. O marido catatónico é, claro está, o syngué sabour da sofrida protagonista da história. Mas quando por fim a pedra se parte, retirando o homem do limbo onde vegetava, o desenlace (no seu exagero operático) é tudo menos libertador.

Avaliação: 7,5/10

[Texto publicado no n.º 77 da revista Ler]



Comentários

4 Responses to “O inferno dentro de quatro paredes”

  1. Leitor atento on Fevereiro 21st, 2009 10:59

    Caro Sr. José Mário Silva,

    Seguindo o link para o seu próprio post em que faz o balanço do Goncourt deste ano, encontrei esta passagem que me pareceu familiar:

    «Syngué sabour é, acima de tudo, um “tour de force” narrativo. Muito ao seu estilo, elíptico e poético, Rahimi descreve o quotidiano repetitivo de uma mulher que trata, com mais zelo que compaixão, do seu marido – um herói de guerra que tem uma bala enfiada na nuca e está numa espécie de coma. Embora continue a respirar, não ouve, não vê, não reage a estímulos, nem mesmo quando o quarto é invadido por soldados que lhe esmagam o peito com a bota. A mulher lava-o, alimenta-o à base de água açucarada, enfrenta o silêncio dele e os tiroteios em volta, foge com as filhas para casa de uma tia, mas volta sempre. Volta sempre porque ele transformou-se na sua “syngué sabour”, uma “pedra da paciência”. Segundo a mitologia persa, esta pedra mágica absorveria, como uma esponja, todos os segredos, misérias e sofrimentos de quem lhe dirige a palavra. Um dia, a pedra racha e com ela desaparecem os segredos, misérias e sofrimentos confessados.
    Diante do marido, que a maltratava por princípio e nunca se deixou amar, a protagonista desfia ressentimentos, revoltas sufocadas ao longo dos anos e muitos pormenores da sua sexualidade, com que ele nem sequer sonharia. No fim, a pedra racha, como era suposto, mas a libertação é só ilusória e o livro acaba em tragédia. Uma tragédia teatral, de uma violência explosiva.»

    Agora compare o seu texto, escrito na altura do anúncio do prémio, com a badana do livro editado pela Teorema, que chegou às livrarias no início deste mês:

    «Em Pedra-de-Paciência, Atiq Rahimi, no mesmo tom elíptico e poético que já caracterizavam [sic] os seus livros anteriores, descreve o dia-a-dia de uma mulher que trata rotineiramente do seu marido, um combatente que, com uma bala enfiada na nuca, se encontra em estado de coma. Como tal, não vê, não ouve, não fala nem reage a qualquer estímulo. A mulher foge com as filhas para casa de uma tia para as pôr a salvo, mas volta sempre para a sua cabeceira. O homem transformou-se na sua “pedra-de-paciência”. Um dia a pedra racha e com ela desaparecem os segredos, as misérias e as dores confessados. Mas a libertação é apenas ilusória e o livro acaba numa tragédia de uma violência inaudita.»

    É só a mim que os dois trechos parecem demasiado similares? Sinceramente, caro José Mário, acho que foi comido por parvo. É certo que se trata de uma sinopse, mas a construção e o vocabulário são quase iguais. A referência ao “tom elíptico e poético”, então, não engana. Você escreveu sobre o livro em cima da hora e o Carlos da Veiga Ferreira picou-lhe o texto. Só não vê quem não quer.
    Uma tristeza.

  2. José Mário Silva on Fevereiro 21st, 2009 12:23

    Caro Leitor Atento,

    Agradeço-lhe a preocupação, mas dispenso-a. Uma sinopse é uma sinopse, não é um trabalho literário original. Pode haver semelhanças, concedo, mas insinuar plágio é um manifesto exagero (e uma maldade). Se a Teorema se inspirou no meu resumo, e mesmo disso não posso estar certo, é porque achou que ele estava bem feito e apresentava bem o livro aos seus possíveis leitores. Nada mais.

  3. Paulo on Fevereiro 22nd, 2009 17:13

    Acabei agora de ler.
    Ainda tenho aberta a janela onde fui ver como é o kandjar.
    Gostei muito, estava excitado pelo seguimento que o livro aqui teve, estava em pulgas.
    Embora muito breve e pouco enfático (estranhei, mas foi sublinhado por uma júri do concurso), as imagens que me fez imaginar são fortíssimas.
    Apreciei a narração, sendo tão frequente aturar narradores tão plenos de opinião, esta narração foi um alívio.

  4. Paulo on Fevereiro 22nd, 2009 17:15

    Só isto mais: o livro enquanto objecto é muito sensual.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges