Ian McEwan goes to the opera

Em 2008, Ian McEwan escreveu o libreto para uma ópera em dois actos de Michael Berkeley, For You, estreada a 28 de Outubro pelo Teatro Musical de Gales, no Linbury Studio da Royal Opera House, em Londres.
A Gradiva, editora das obras todas de McEwan, acaba de lançar a versão portuguesa do libreto (Por Ti), traduzido por Maria de Fátima Carmo. Eis a segunda cena do primeiro acto:

SEGUNDA CENA

Sala de estar da casa dos Frieth, em Londres. A mulher de Charles, Antonia, observa enquanto Simon Browne, cirurgião, com uma bebida da mão, admira os quadros na parede.

Antonia Foi amável da tua parte vires a minha casa.

Simon Estou aqui como velho amigo, não como teu médico.

Antonia Eu devia estar a aguardar a minha vez na tua sala de espera.

Simon Mais uma oportunidade de ver estas maravilhas…
Ancher, Munther, O’Keeffe.
E tu…

Antonia Sim, há quem diga que estas pintoras
estiveram no limiar da grandeza.
Mas, Simon, olha para mim. Estou tão cheia de medos!
Mais outra operação. Não consigo encará-la.
Tem mesmo de ser tão depressa?
Preciso de te perguntar – não há outro modo?

Simon Uma ressecção, e uma biopsia, para nos tranquilizar.
Um procedimento relativamente simples.
Acredita quando te digo que não há outro modo
e que temos de agir já.

Faz uma pausa.

É o teu antigo medo, o que te assombra?

Antonia Sim. É ridículo, bem sei.
O meu antigo medo,
a anestesia, a anestesia geral.
A palavra «geral» soa de forma tão sinistra
aos meus ouvidos.

Simon Mas agora é perfeitamente segura. Quantas vezes
temos de falar disto?

Antonia Receio aquele momento de esquecimento,
aquele ensaio para a morte.
O maqueiro animado, com a sua geringonça,
que me vem recolher à enfermaria.
Penso em Caronte, o barqueiro,
a fazer-me atravessar o rio Estige.
Depois, corredores, luzes fluorescentes nos tectos,
o elevador para um compartimento especial, pequeno,
as vozes tranquilizadoras,
a inserção da cânula, o veneno químico,
e depois o frio a subir-me pelo braço
a uma velocidade de tal forma violenta,
e depois nada, nada.

Simon Exactamente, nada, e nada a temer,
e quando acordares…

Despercebida, Maria entra com um tabuleiro.

Antonia Se acordar. O que foi que o poeta escreveu sobre a morte?
A anestesia da qual ninguém acorda.

Simon O melhor é não se pensar em Larkin nestas alturas.

Antonia Sei que pensas que sou neurótica.

Simon Sei que és infeliz.

Faz uma pausa.

Onde está Charles? Ele sabe?
Ouvi o concerto dele na rádio.
Não vou fingir que gosto da sua música.
As notas parecem escolhidas aleatoriamente,
e que barulheira! Um coro de gatos!
Mas eu sou um tipo simples que prefere Vivaldi.

Antonia Ele ficou a trabalhar até tarde.

Simon Outra vez?

Antonia A trabalhar até tarde outra vez.
Trabalhar é a palavra a que nos agarramos,
Trabalhar é o nosso eufemismo doméstico.
Levamos uma vida privilegiada de mentiras.

Simon (baixinho)
Tens de fazer uma mala.
Voltarei esta noite para te levar
se conseguir encontrar uma cama livre.

Dirige-se a ela, hesita.

Demasiado para dizer.

Antonia Sim. Demasiado para dizer.

Simon Impossível dizê-lo.

Antonia Impossível. E desnecessário.

Simon Porque tu sabes.

Antonia Nós sabemos.

Simon Apenas silêncio.

Antonia O silêncio dirá tudo.

Repetem, em sobreposição.
Simon pega no casaco.

Simon Estou atrasado. Tenho de te deixar. Dever de médico.

Antonia O hospital? A esta hora?

Simon Uma recepção no Garrick, de homenagem
a um cirurgião que se aposenta. O tabuleiro cintilante dos canapés,
a profusão obscena de colegas,
os discursos untuosos de veemente hipocrisia.
Penso que todos concordamos:
não estamos em época de se falar claramente.

Antonia, não deves preocupar-te,
vai correr tudo bem.

Antonia Tens de ir.

Quando se voltam, reparam em Maria. Simon cumprimenta-a com um aceno e sai.

Antonia Maria. Há quanto tempo estavas aí?

Maria Tinha acabado de entrar
com bebidas para a sua visita.

Antonia Não te ouvi.

Maria A porta estava aberta, o senhor doutor ia mesmo a sair.

Pousa o tabuleiro.

Ponho dois lugares para o jantar?

Antonia Não como, esta noite. Estarei no meu quarto,
e não quero ser incomodada.

Antonia sai.



Comentários

One Response to “Ian McEwan goes to the opera

  1. candida on Abril 23rd, 2009 23:18

    pensando melhor, o -te faz-me sentido.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges