O livro de vidro

333
Autor: Pedro Sena-Lino
Editora: Porto Editora
N.º de páginas: 184
ISBN: 978-972-0-04274-3
Ano de publicação: 2009
Pedro Sena-Lino (n. 1977) é sobretudo conhecido como poeta – tem sete livros publicados – e professor de escrita criativa. Neste momento, está a doutorar-se em Literatura Feminina do século XVII, uma investigação académica que serviu decerto como detonador para o seu primeiro romance, 333, publicado pela Porto Editora – numa edição em capa dura que tem merecido um esforço promocional considerável (raro, diga-se, em autores estreantes).
Decalcando-a de Soror Mariana Alcoforado, mas igualmente de outras mulheres vítimas de «séculos de apagamento», Sena-Lino começa por inventar uma freira que escreve, em latim, 12 extraordinárias Cartas de amor (talvez místico, talvez carnal). Chama-se Soror Flâmula da Encarnaçam (1538-1622), é portuguesa, vive fechada no imaginário Mosteiro de Santa Maria Madalena, e as suas ardentes palavras acabam impressas, em Milão, por Darius Waerminger, um respeitado discípulo de Aldus Manutius.
Enfeitiçado pelas Cartas, Waerminger esmera-se na produção de cada um dos 333 exemplares do livro, ricamente encadernados e transportando, lá dentro, «a sua vida impressa». Isto é, albergando nas suas páginas uma espécie de totalidade, já que «observava em cada livro composto como o seu coração se desdobrava e se expandia, como se tivesse encontrado um lugar definitivo no mundo para todos os seus sentimentos». É a disseminação pela Europa desta obra que tudo reflecte, exalta e absorve (semelhante a «um livro de vidro, onde todos os homens possam ler e ver-se no que serão completamente no futuro») que o romance procura traçar, fragmentando-se pelo caminho em dezenas de pequenas histórias, uma para cada leitor ou proprietário dos exemplares das Cartas.
Esta multiplicação de enredos, alguns curtíssimos (tão lapidares que cabem num parágrafo, ou mesmo numa frase), outros maiores e com fôlego de história autónoma, trazia em si um risco: a implosão daquilo a que podemos chamar a consistência e unidade do romance como um todo. Que isso nunca chegue a acontecer, por muito que saltemos de um espaço geográfico para outro, ou de uma época histórica para outra, é a prova de que Sena-Lino conseguiu manter o controlo sobre a matéria ficcional proliferante que tinha entre mãos. Um feito em si mesmo, diga-se, e daqueles que não está ao alcance de qualquer escritor.
No fundo, 333 é um apaixonado exercício de bibliofilia, de fé no poder da palavra escrita e na capacidade que os livros têm de transformar a vida de quem os lê. O que acontece quando um livro encontra o seu leitor? Eis a pergunta a que este livro responde, inventariando com zelo cada um desses encontros, numa espécie de arqueologia da recepção que em condições normais é impossível de fazer (nenhum autor conhece o destino de todos os exemplares do livro que escreveu). Nas dezenas de histórias de 333, muitas delas cruzadas, encontramos algumas epifanias e encantamentos, mas sobretudo desastres, horrores, tragédias. De uma forma ou de outra, quase todos os exemplares se perdem e predominam, num universo saturado de símbolos, as destruições pelo fogo (com destaque para aquelas em que intervém Frei Jusué da Sarça Ardente, um censor obstinado) e pela água.
A arquitectura de 333 – original, sólida, bem articulada – é o seu maior trunfo. O problema está na escrita de Sena-Lino, no excesso metafórico, na ênfase lírica que boicota ou entorpece demasiadas vezes o processo ficcional, no abuso de expressões gongóricas («a profundidade secreta da sua alma», o olhar que golpeia «de eternidade», os amantes «rasgando-se num relâmpago interior de prazer», etc.) que se tornam cansativas, mesmo sabendo que a narradora, a tal monja reclusa do século XVII, teria forçosamente que escrever num estilo barroco, para ser fiel à sua natureza e ao seu tempo. Acontece que o barroco de Soror Flâmula é uma espécie de supra-barroco, de barroco para lá do barroco, uma apoteose verbal que acaba por se consumir no seu próprio ímpeto. Para domar um pouco a torrencialidade desta escrita, exigia-se um maior trabalho de edição, que podia ainda ter evitado pleonasmos («entrar dentro da loja»; «há uns anos atrás»), diversas incongruências narrativas (como os três filhos rapazes do Duque de Urbino que passam, na mesma página, a «duas crianças interessadas no entendimento», sem que se perceba o que aconteceu entretanto à terceira) e até erros toponímicos (há uma personagem que está «numa pequena leitaria na rua Ivens» em 1875, quando a rua não se chamava de certeza assim; até porque Roberto Ivens, nascido em 1850, só começaria dois anos depois as explorações geográficas em África que o tornaram famoso).
Avaliação: 6/10
[Versão longa de um texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]
Comentários
5 Responses to “O livro de vidro”
- Melancólicas criaturas em 20 de Maio de 2012
- Primeiros parágrafos em 20 de Maio de 2012
- Um rato através da anaconda em 20 de Maio de 2012
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Apesar dos aspectos menos bons fiquei curiosa…
quando não se é um ficcionista e se quer ser, coloca-se muita “poesia” para encher e depois dá nisto.
mesmo a poesia dele por vezes cansa, por ser inconsequente.
mas enfim, é prof., vende, edite-se.
José Mário, apagou o meu comentário?
Censura, hein?
Que comentário João Corta-Relva? Não apaguei nada escrito por si, pode estar certo.
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