O mapa do geógrafo errante

Se me Comovesse o Amor
Autor: Francisco José Viegas
Editora: Quasi
N.º de páginas: 56
ISBN: 978-989-552-319-1
Ano de publicação: 2007
Francisco José Viegas é sobretudo conhecido como romancista, director da Casa Fernando Pessoa, cronista do quotidiano e da mesa bem posta ou blogger (dos mais antigos e regulares cá do burgo). Menos lembrada, a sua obra poética permanece numa espécie de segundo plano, o que não deixa de ser uma injustiça — como sabe quem tenha lido as quase 300 páginas de Metade da Vida (Quasi, 2002), volume que reúne todos os seus livros anteriores.
Em Se me Comovesse o Amor, Viegas escreve de um território fora do mundo, um lugar em que a poesia procura legitimar-se através de um absoluto desprendimento. Nos poemas, nada do que nos habituámos a encontrar nos versos de FJV ficou de fora: as elegias para os amigos (Manuel Hermínio Monteiro) ou familiares (uma tia); as subtis descrições de paisagens de outros continentes (o grande Sul, as montanhas, a neve em Ushuaia); o enlevo com “a doçura das coisas”; as elegantes enumerações; um certo fascínio com o que resiste ao olhar do viajante (seja o tango ou o silêncio da noite). Mas depois, pairando sobre tudo isto, há uma dúvida persistente quando ao verdadeiro poder da poesia: “Nenhuma palavra é capaz de dizer adeus com aquela perfeição das coisas que comovem.”
A servir para alguma coisa, a poesia serve para a contemplação: “o poeta / devia interpretar as meteorologias, prever / as tempestades, não dar voz às coisas / do mundo nem às pequenas glórias”. Neste livro melancólico, FJV insinua que a literatura é uma forma de afastamento da realidade concreta do mundo, fazendo de nós “passageiros obedientes” que desconhecem o nome do que “fica no meio das árvores”.
É contra este aturdimento, esta cegueira livresca, que se movem os poemas de Viegas, na vertigem de uma austera imponderabilidade existencial. Aqui não há segredos, não há mistérios, “só um risco no céu, um desígnio, um sinal, um aviso”. O sujeito poético já não faz perguntas e avança através de elipses (os poemas de amor), gozos e sarcasmos (como em O Beijo de um Académico em Paris) ou em voos picados sobre a passagem do tempo e os seus efeitos.
À desconfiança em relação à literatura, seguem-se as dúvidas em relação a si mesmo. O envelhecimento é olhado de frente, na sua obscena crueldade. E com ele o medo de quem vai “acrescentando ausências sobre ausências” e não sabe que herança deixar
aos filhos, “para além dos livros” e das “recordações de aldeia”, enquanto a “morte avisa uma e outra vez, / soletrando o teu nome, aprendendo as tuas sílabas, / o teu caminho, para depois te encontrar mais depressa”.
Evitando as lágrimas e a metafísica, este é o mapa de um geógrafo errante, de um “solitário entre ruínas”, que conta “o número de vítimas” e faz deste volume um dos melhores livros de poesia portuguesa editados em 2007.
Avaliação: 8/10
[Texto publicado na revista Time Out Lisboa]
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Comentários
2 Responses to “O mapa do geógrafo errante”
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[...] O mapa do geógrafo errante [...]
Um livro calmo, saboroso e curto mas com aquele coice que nos dá vontade de repetir