O mea culpa do Jornal de Notícias

Como não podia deixar de ser, o Jornal de Notícias pede hoje desculpa aos seus leitores pela absurda notícia falsa a que se agarrou obstinadamente durante quase uma semana, segundo a qual Manuel António Pina teria vencido o Prémio Casino da Póvoa, antes mesmo da reunião do júri. Só agora, quando a realidade desmentiu a conjectura de uma fonte supostamente «da maior credibilidade» e que «parecia lidar com informação muito restrita», veio finalmente o autor da notícia assumir que errou. Compreende-se que proteja a sua fonte, mesmo se a fonte não o protegeu a ele, expondo-o ao embaraço de uma humilhação pública. Mas há algo que não se compreende: como é que um jornalista aceita a informação de uma fonte e não a confirma? Neste caso, bastaria telefonar à organização das Correntes d’Escritas e averiguar quando é que o júri se reuniria. Porque nunca pode haver fuga de informação sem informação, nem se pode anunciar antecipadamente o que ainda não aconteceu. Depois de publicar a sua notícia no sábado e de ler o desmentido no domingo (explicitando que o júri só se reuniria na quarta-feira), porque insistiu o jornalista na dica de uma fonte que estava visivelmente equivocada? Só ele o poderá dizer. O problema é que a insistência implicou uma natural suspeita sobre a idoneidade do júri e a lisura dos seus procedimentos. Uma suspeita tão grave e insidiosa como infundada.
Fica bem a Agostinho Santos dar a cara pelo seu erro, pela sua má conduta profissional, e pedir desculpa aos leitores do Jornal de Notícias. Antes, porém, devia pedir desculpa a quem mais lesou com todo este caricato e infeliz episódio: o júri do prémio, do qual fiz parte com muita honra e prazer, a organização das Correntes d’Escritas, e o próprio Manuel António Pina, que merece todas as homenagens menos esta.



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges