O ouro das palavras

capa 'Comboio Nocturno'

Comboio Nocturno para Lisboa
Autor: Pascal Mercier
Título original: Nachtzug nach Lissabon
Tradução: João Bouza da Costa
Editora: Dom Quixote
N.º de páginas: 423
ISBN: 978-972-20-2983-4
Ano de publicação: 2008

Uma epifania em dois actos. Eis o que Raimund Gregorius, 57 anos, sólido nas suas rotinas de professor de línguas clássicas (latim, grego, hebraico) num liceu de Berna, divorciado solitário, não esperaria que lhe acontecesse. Mas acontece. E nesse dia a sua vida muda radicalmente. Primeiro acto: uma mulher na ponte de Kirchenfeld, debaixo de chuva, ameaçando o salto para o rio. É portuguesa, misteriosa, uma espécie de anjo anunciador que lhe escreve um número de telefone na testa. Segundo acto: já depois do desaparecimento da mulher angélica, a descoberta, numa livraria espanhola, de Um Ourives das Palavras – voluminho de fragmentos filosóficos editado, em 1975, por um tal Amadeu Inácio de Almeida Prado.
A unir os dois acontecimentos, uma palavra: “português”. O idioma desconhecido – mas vivo – que ressuscita o homem das línguas mortas. Em casa, põe-se a aprender os rudimentos, recorre a dicionários e tenta traduzir os textos de Prado, à cata do ouro das palavras de que o livreiro lhe concedeu um vislumbre. Gregorius deixa-se contaminar gradualmente pela ressonância pessoana de frases que parecem ter sido escritas a pensar nele: “Se é verdade que apenas podemos viver uma pequena parte daquilo que em nós existe, então o que acontece ao resto?” O interesse literário transforma-se em obsessão. Num impulso, decide partir para Lisboa no comboio da noite, à procura daquele pensador singular que reflecte sobre a solidão, a morte e o poder da linguagem.
Na capital portuguesa, cedo descobre que Prado, um médico que lutou contra Salazar, morreu um ano antes da revolução. Mas não desiste. Um a um, contacta familiares, amigos e conhecidos, tentando compreender o autor dos textos que parecem espelhar as suas mais escondidas aspirações e angústias. O retrato que emerge é o de um homem complexo e contraditório, um “sacerdote ateu” que sublimou na escrita os seus dilemas morais, frustrações amorosas e traumas familiares.
Ao recolher informações e memórias alheias, cruzando-as, Gregorius acaba por intuir a verdade de Prado, talvez melhor do que as pessoas que lhe eram mais próximas: Adriana, a irmã que em tempos Amadeu salvou com uma traqueotomia, agradecida e adoradora ao ponto de transformar o seu consultório num mausoléu de objectos intocados, onde o tempo se imobilizou; Jorge O’Kelly, pianista frustrado, farmacêutico e melhor amigo (até que uma mulher se atravessa entre os dois); ou João Eça, o resistente antifascista a quem arrancaram unhas e cujas mãos tremem tanto que não pode beber mais do que meia chávena de chá. Com um impressionante rigor analítico, o professor suíço, bom xadrezista, junta as peças no tabuleiro: cartas nunca enviadas, sinais, segredos, vozes mortas saindo de um antigo gravador de bobinas. No fim, a ameaça de um tumor na cabeça (uma de muitas simetrias com o objecto das suas investigações, vítima de um aneurisma cerebral) força o regresso a Berna.
Terceiro romance de Pascal Mercier, Comboio Nocturno para Lisboa é um livro sobre o modo como a linguagem pode iluminar ou obscurecer a compreensão do mundo à nossa volta, além de uma odisseia existencial fascinante mas algo pesada, em parte devido ao estilo palavroso. Após inúmeras deambulações por Lisboa, com breves passagens por Coimbra, cabo Finisterra e Salamanca, Gregorius consegue aproximar-se da essência de Prado, mas é sobretudo a si mesmo que se desvenda, como se o médico-poeta português fosse, desde a primeira hora, o pretexto para uma viagem de descoberta interior.
Numa narrativa densa e bem construída, com personagens de grande profundidade psicológica, não deixa de ser curioso que o elo mais fraco esteja nas prosas de Amadeu, o livro-dentro-do-livro que justifica a fuga de Gregorius. Muitos dos fragmentos são banais, pretensiosos ou redundantes. E mesmo os melhores, os que mais se aproximam do tom de Bernardo Soares, ficam a anos-luz do heterónimo que trabalhava na Rua dos Douradores. É ainda notório o desconhecimento, por parte de Mercier, do que foi a verdadeira oposição a Salazar, aqui apresentada como uma espécie de Resistência francesa transposta para o eixo Bairro Alto-Baixa, despolitizada e só com o Tarrafal ao fundo.

Avaliação: 7,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual do Expresso]



Comentários

4 Responses to “O ouro das palavras”

  1. Petra Noack/TFM - Centro do Livro on Abril 15th, 2008 17:46

    Achei interessante a sua crítica. Aqui na Alemanha, o livro de Pascal Mercier foi um grande sucesso e a crítica em geral muito positiva.
    Estou curiosa quanto às reacções em Portugal.

  2. Lutz on Abril 15th, 2008 23:38

    É verdade, na Alemanha o livro foi um sucesso de vendas estrondoso, e também recebeu boas críticas. Li-o em alemão, e embora tendo de reconhecer a narrativa competente e a profundidade de alguns personagens – vá lá, do protagonista, irritou-me solenemente como Mercier criou um Portugal cheio de clichés e frequentemente inverosímil. Pior do que coisas como apresentar um resistente contra a ditadura cuja actividade revolucionária consistia em colocar bombas na rede ferroviária do país, achei o pretensiosismo ignorante na caracterização dalguns personagens portuguesas. Não daria 7.5 em 10 pontos.

  3. Bibliotecário de Babel – Lisbon Story on Abril 16th, 2008 13:03

    […] O ouro das palavras […]

  4. Bibliotecário de Babel – Falta de esmero on Maio 2nd, 2008 15:55

    […] deste tipo pode ser igualmente arrasadora para outros livros recentemente lançados, como o Comboio Nocturno para Lisboa, de Pascal Mercier, no qual abundam os erros ortográficos (”espiação” em vez de […]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges