O país que temos

A conferência de imprensa em que seria anunciado o Prémio Camões deste ano estava marcada para as 17h30. O Prémio Camões é o mais importante dos galardões atribuídos a escritores de língua portuguesa; ou seja, um dos mais importantes acontecimentos culturais no espaço da lusofonia. Na minha ingenuidade, supus que pelo menos o canal público de televisão se dignasse a transmitir a conferência de imprensa em directo. E por isso, contra os meus hábitos, sentei-me diante do televisor a meio da tarde. Enquanto a SIC e a TVI exibiam comédias e filmes de acção, a RTP1 repetia mais um episódio de Dança Comigo, a RTP2 transmitia um jogo de hóquei em patins e a RTPN informava, em rodapé, que “o Prémio Camões é atribuído hoje”, enquanto passavam reportagens sobre assuntos menores da actualidade.
Esperei até às 18h40, em vão, e depois soube que João Ubaldo Ribeiro tinha ganho. Como? Desligando a TV e acedendo à internet. Já se sabe que se algum futebolista chamasse a imprensa para dizer que quer mudar de clube, as emissões seriam interrompidas para um “directo”, mas João Ubaldo, o grande João Ubaldo, ficou pendurado no rodapé e só teve direito a peças de dois minutos nos telejornais da noite, lá para o fim do alinhamento. Alguém fica surpreendido? Eu não. Há muito que deixei de esperar mais do que isto do país que temos.



Comentários

2 Responses to “O país que temos”

  1. francisco c on Julho 31st, 2008 8:52

    caro zé mário, estive em dublin há pouco tempo e, durante a semana que lá estive, li todos os dias um dos jornais gratuitos da cidade: o “metro”. pois não é que o jornaleco dedicava 2 (duas!) páginas diárias à crítica literária?

    este país não é para literatos…

  2. José Mário Silva on Julho 31st, 2008 10:44

    Por cá, Francisco, nem os jornais de referência dedicam duas páginas diárias à crítica literária. Para os gratuitos, os livros só existem quando são escritos por ex-inspectores da PJ ressabiados.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges