O problema da rotatividade

A questão que aqui se levanta é legítima mas algo forçada. De uma maneira ou de outra, toda a gente sabe que o Prémio Camões foi – e é – atribuído segundo uma escala de rotatividade entre os países mais poderosos da CPLP. Basicamente, a coisa divide-se entre o Brasil e Portugal (relembre-se: os países que instituíram o prémio e o pagam), com um desvio por Moçambique ou Angola, de tempos a tempos, para não melindrar demasiado as gentes. No fundo, mais do que um prémio literário, é um prémio político. E é como prémio político que deve ser entendido.
Depois de António Lobo Antunes ter ganho em 2007, não creio que algum autor português com obra digna de consagração estivesse à espera de ser escolhido este ano. Por isso, o suposto lapsus linguae do presidente do júri, Ruy Espinheira Filho, ao admitir que desta vez a discussão estava limitada, à partida, a autores brasileiros, não é a prova de um qualquer processo de escolha “inquinado” mas antes a confirmação de um modus operandi que já se tornara mais do que óbvio para qualquer observador minimamente atento.
Concorde-se ou discorde-se da lógica subjacente ao Prémio Camões, ele é o que é. Aliás, ele é (e continuará a ser) o que sempre foi. Uma escolha política. Não me parece que valha a pena pensar que pode ser outra coisa.



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges