O próximo Littell

Daniel Mendelsohn

Se 2006 foi, em França, o ano de Jonathan Littell e de Les Bienveillantes (As Benevolentes na edição da Dom Quixote), esse romance de estrutura musical que nos atira à cara as memórias desumanas (ou talvez, pelo contrário, excessivamente humanas) de um antigo oficial nazi, 2007 assistiu à consagração de outro ilustre desconhecido: Daniel Mendelsohn, autor de Les Disparus (Flammarion). Este judeu nova-iorquino não escreveu 900 páginas (ficou-se pelas 650) nem ganhou o Goncourt (ficou-se pelo Médicis), mas o seu livro conseguiu ser mais consensual do que Les Bienveillantes, provavelmente porque explora o reverso da medalha: em vez da perturbadora confissão de um monstro, temos a busca retrospectiva da verdade sobre o desaparecimento de seis judeus (familiares próximos) logo após a invasão da Polónia, em 1939. Numa obra híbrida, que cruza os mais diversos géneros (da investigação jornalística à autobiografia, da análise histórica à epopeia), Mendelsohn deambula pelo campo das vítimas mas escapa aos determinismos morais típicos da literatura sobre o Holocausto, ao revelar as cobardias, traições e remorsos de todos aqueles que podiam ter feito mais do que fizeram para salvar as vidas perdidas na escuridão da II Guerra Mundial.
A tradução de The Lost: A Search for Six of Six Million (ao contrário de Littell, Mendelsohn não escreve em francês), já tinha sido muito elogiada durante a rentreé, em Setembro, mas quem a pôs nos píncaros foi a Lire, que no seu último número (Dezembro/Janeiro) elegeu o livro como o melhor publicado em França durante o ano de 2007. Mais: pela primeira vez na sua história, a redacção da revista (composta por 27 jornalistas) assumiu a escolha por unanimidade e com enorme “entusiasmo”, numa “reunião-relâmpago”.
No seu editorial, François Busnel, o director, não poupou nas palavras:

«C’est une odyssée que préfère l’identification à l’identité. Version généreuse de la quête de soi: préférer identifier l’autre plutôt que redéfinir, une énième fois, sa propre identité. Le succès de ce livre sera mondial. Il y aura des dizaines de thèses de doctorat autour des Disparus. Il ne peut pas être autrement. L’un des grands mérites de ce sommet de la littérature contemporaine sera de réconcilier ceux que doutent encore du pouvoir des livres avec le monde des lettres. Ce n’est pas rien.»

O sucesso do livro não se limitará a França, diz Busnel, sabendo que para 2008 já há traduções previstas no Brasil, na Polónia, na Grécia e… em Portugal.
Falta só saber quem vai ser, por cá, a editora de tão promissora obra. Aceitam-se apostas.



Comentários

6 Responses to “O próximo Littell”

  1. Jorge Silva on Janeiro 17th, 2008 10:29

    Só para precisar. Não se trata de um romance, mas sim de um livro de não-ficção.

  2. Ana Cristina Leonardo on Janeiro 17th, 2008 14:35

    «determinismos morais típicos da literatura sobre o Holocausto», refere-se com certeza à má literatura sobre o Holocausto. Se ler Primo Levi, Jean Améry, Jorge Semprún, Robert Antelme, David Rousset, Imre Kertész ou David Grossman (entre outros)verá que não são nada típicos.
    Estará talvez a falar de Eli Wiesel?

  3. José Mário Silva on Janeiro 17th, 2008 15:57

    Jorge,

    Não será um romance (já corrigi) mas também não é apenas um livro de não-ficção. Está algures a meio caminho, parece-me, como os livros de W. G. Sebald. De resto, o termo “romance” é hoje em dia tão elástico que não me choca vê-lo aplicado a obras que partem de uma investigação “real” mas cruzam os territórios da ficção.

    Ana,
    Onde se lia “determinismos morais típicos da literatura sobre o Holocausto” talvez devesse ter escrito “determinismos morais típicos de uma certa literatura sobre o Holocausto”, para precaver algumas das excepções que citas. Mas o ponto é este: muito do que se escreveu sobre a Shoa coloca os judeus apenas na condição de vítimas. Mendelsohn, pelo contrário, atreve-se a mostrar o peso da culpa e do remorso dos que se salvaram por terem sido cobardes ou cínicos. E assim escapa ao determinismo a que me referia: o do esquema básico (nazi- mau; judeu- bom).

  4. Ana Cristina Leonardo on Janeiro 17th, 2008 16:25

    os judeus foram dos mais críticos para com a própria família. basta ler sobre o gueto de varsóvia para perceber o que quero dizer.
    quanto à culpa e remorso, não seria preciso, só por isso, chegar o Mendelsohn (atenção, não li o livro). Alguns dos sobreviventes que refiro acima mataram-se, infelizmente. e não necessariamente por terem cobardes ou cínicos. aliás, seria preciso ter cuidado com essa ideia de heróis. no nazismo, um herói judeu seria herói por muito pouco tempo para passar depressa a judeu morto para sempre. Apesar de todas as nuances, na II guerra, nos países envolvidos, os judeus foram vítimas, sim, e os nazis carrascos. mesmo os judeus cobardes ou cínicos. e é preciso lembrar, algo que às vezes se esquece, que, a partir de determinada altura, não tinham sítio para ir porque ninguém estava interessado em recebê-los. Para os Aliados, na época eram danos colaterais.

  5. José Mário Silva on Janeiro 17th, 2008 16:39

    “Apesar de todas as nuances, na II guerra, nos países envolvidos, os judeus foram vítimas, sim, e os nazis carrascos. mesmo os judeus cobardes ou cínicos.”
    Espero que não duvides um segundo que penso exactamente como tu. Respeitarei sempre mil vezes mais um judeu cobarde que não esteve à altura da loucura da II Guerra Mundial do que um nazi arrependido.
    Já agora, um dos tais sobreviventes que se mataram, no caso dele muitos anos depois, o angustiado Primo Levi (heróico no sentido em que nos legou a memória lúcida do horror inominável), é justamente um dos escritores que mais admiro.

  6. Encontrar ‘Os Desaparecidos’ | Bibliotecário de Babel on Julho 15th, 2009 13:14

    […] de 2009: Os Desaparecidos, de Daniel Mendelsohn, uma «obra híbrida» sobre a qual já escrevi aqui. Quem a vai publicar é a Dom Quixote, em […]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges