O que aí vem (Caminho)

A Arte de Morrer Longe, novo romance de Mário de Carvalho, nas livrarias a 21 de Abril.
Um excerto:

«Descortina o leitor um tipo de português largo e inflado, ovante e intrusivo, propenso à calvície, com sobrancelhas de escovilhão, riso beiçudo, pelame encaracolado em todo o corpo, amador da piadola e da pirraça, grosseiro para os mais fracos, airoso para os superiores, em absoluto impenetrável a noções básicas de decência e decoro? Uma figura digna das Metamorfoses, em que se hibridam o entranhado lanzudo e o atávico malandrim? Não descortina? Então é porque este Quintão Malpique era uma raridade e convém, na passagem, examiná-lo mais de perto como espécime singular.
Se lhe perguntassem por que é que ele se tinha queixado à polícia, por carta anónima, duma velha que dependurava os cobertores nas traseiras do prédio, sem que isso afectasse ninguém, e muito menos os empregados duma empresa que não moravam ali, ele responderia, rindo: “É só p’ra chatear.” Do mesmo modo, quando telefonava para a Câmara, disfarçando a voz , a denunciar um vizinho que fazia obras clandestinas numa casa de banho, era “só p’ra chatear”. Também era “só p’ra chatear” o gesto de deixar o elevador encravado no nono andar para que um casal de idosos, com o seu velho cão, tivesse de se arrastar pelas escadas.
Comprazia-se, naturalmente, com a incomodidade dos outros. Uma acção que tivesse como motivação “chatear” parecia-lhe absolutamente justificada, desde que não fosse ele o chateado. Uma representação popular – aliás falsa e caluniosa – que atribui o incêndio de Roma a Tibério Nero Enobarbo, para depois celebrar a catástrofe, a toque de cítara, poderá não andar longe do feitio de Quintão Malpique, descontando o pendor artístico.
Desde que descobrira a Internet, aliás tardiamente, tinha sido um alvoroço. Aplicava boa parte das horas de serviço a escrever comentários anónimos nos blogues alheios e nas páginas que os admitissem.»

Aos Quintões Malpiques deste mundo, nas caixas de comentários dos blogues ou fora delas, conheço-os bem. E Mário de Carvalho, pelos vistos, ainda melhor.



Comentários

One Response to “O que aí vem (Caminho)”

  1. io on Abril 2nd, 2010 21:03

    Excelente notícia! Delicioso amuse-bouche!

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges