O que não se sabe

(glosa oblíqua de um verso de Ferreira Gullar)

Murmuras
Só o que não se sabe é poesia
e eu vejo-te à janela,
observando o movimento das coisas
na rua Duvivier, seu lento desfile,
sua prodigiosa vertigem, sua incerta glória,
uma miríade de coisas simples e pequenas
que desembocam numa grandeza cósmica,
coisas que se agitam, que se inflamam,
que brilham, coisas já matéria verbal
a aninhar-se no poema ainda no limbo,
esse novelo crescendo algures no
labirinto das circunvoluções cerebrais,
acendendo-se na tua consciência durante
o simples acto de olhar a rua, o poema
à espera de encontrar quem não saiba
o suficiente para o escrever, para o dizer.

Estás à janela, com o poema
expandindo-se dentro da cabeça,
poema silencioso, pés de lã, a erguer-se
do nada para uma espécie diferente
de silêncio, o som áspero das palavras
agora no papel, andaimes de tinta, carena
de um navio invisível mas que flutua
e avança leitor adentro, com os porões
carregados da melancolia que julgavas
só tua, mas que cedes agora ao
estranho comércio da poesia,
esse tráfico de ouro e pólvora,
brilho e deflagração.

Estás à janela, a cabeleira branca
reflectida no vidro, consciente
de cada um dos teus ossos,
e sobre os telhados do Rio de Janeiro
o céu que escurece é o de São Luiz
do Maranhão, paira no ar o cheiro
das bananas apodrecendo na tua infância,
a sombra das mil faces da miséria, a violência
venenosa do jasmim, o passado inteiro
com a sua carga ora sublime, ora abjecta,
e tudo isso cai no buraco do poema ainda
por existir, ainda buscando a sua forma
mas já em aproximação brusca
a quem um dia o lerá, compreendendo
ou não todos os sinais, a ordem
dentro da desordem, as asas da mosca
pousada no parapeito e a espiral
da mais longínqua das galáxias.

A rua Duvivier, não a conheço.
Fica numa cidade, o Rio de Janeiro,
onde nunca estive. Por isso, o teu
prédio, a tua janela, assumem na minha
imaginação uma forma que nasce
dos prédios todos de que me lembro
(prédios que não ficam na rua Duvivier)
e de todas as janelas que não são janelas
de prédios que fiquem na rua Duvivier.
É imaginária a janela em que te imagino,
no alto de um prédio também ele imaginário,
mas reais ambos, janela e prédio, porque
és tu e a tua cabeleira branca que se
reflectem no vidro enquanto o poema
ganha forma no labirinto das minhas
circunvoluções cerebrais.

Agora sou eu que murmuro:
Só o que não se sabe é poesia.
Não há poucos poetas porque
saibamos pouco. Há poucos
poetas porque sabemos demais.
Escrever é levantar uma cerca,
arame farpado na planície:
para cá da cerca, as nossas certezas;
para lá da cerca, o que desconhecemos.
Se tivermos sorte, o poema vem ter
connosco quando insones,
sonâmbulos, abrimos o portão
sem fazer barulho e nos perdemos lá
fora, nessa noite que escurece sobre
a nossa ignorância, sobre o Rio,
sobre a verdadeira rua Duvivier
e sobre a que imagino, sobre ti
e sobre mim, perdidos os dois
no reflexo da janela que não há.

[Poema escrito anteontem à noite, na Póvoa de Varzim, e lido ontem à tarde, na mesa 3 das Correntes d’Escritas]



Comentários

One Response to “O que não se sabe”

  1. isabel ribeiro on Fevereiro 24th, 2013 10:18

    Outro momento para guardar… Obrigada, José Mário Silva.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges