O que se perde na tradução
«Poesia é o que se perde na tradução», escreveu Robert Frost. E perde-se sempre muito, mesmo nos casos em que o tradutor domina bem as duas línguas (a de partida e a de chegada), mesmo nos casos em que o tradutor é, ele próprio, um poeta. Impunha-se, por isso, instituir uma lei: todos os livros de poesia traduzidos devem ser bilingues. Isto para que o leitor possa em qualquer momento recorrer ao original e reencontrar a tal matéria perdida de que falava Frost.
Vem isto a propósito do livro de John Updike que a Civilização acaba de publicar, Ponto Último e outros poemas, bem traduzido por Ana Luísa Amaral (especialista em literatura norte-americana e autora de poesia), mas que tem a pecha de não ser bilingue e por isso não permitir o confronto com os textos originais. Embora o trabalho de Ana Luísa Amaral seja meritório, é evidente que há particularidades e subtilezas da escrita de Updike que desaparecem completamente na versão portuguesa. Era o acesso imediato a essas particularidades e subtilezas que não devia ser negado ao leitor.
Veja-se, por exemplo, como traduziu Amaral os dois primeiros versos do poema A Lightened Life:
Uma vida mais leve: as últimas provas do romance
expedidas – a revisão final, para trás, para a frente,
No original, os mesmos versos são assim:
A lightened life: last novel proofs FedExed—
the final go-through, back and forthing,
Para começar, parece-me que «last novel proofs» não são «as últimas provas do romance», mas sim as provas do último romance, do romance final, daquele a que não se seguirá nenhum outro (este poema, como quase todos os outros, é marcado pelo sentido do fim, da morte que se aproxima). E depois, como traduzir «FedExed»? Difícil. As provas foram expedidas, de facto, mas não apenas expedidas. Foram expedidas pela FedEx, uma empresa americana que os leitores americanos conhecem bem. «Expedidas» faz pensar em estação dos correios; «FedExed» faz pensar num funcionário a bater à porta de casa do Sr. Updike e a levar o pacote das provas numa carrinha branca com letras roxas e cor-de-laranja. Talvez não houvesse forma de passar decentemente aquele «FedExed» para português, mas se o livro fosse bilingue podíamos pelo menos intuir a urgência do verbo usado por Updike (a FedEx é uma empresa de entregas rápidas) e que o verbo português escolhido claramente não evoca.
Comentários
6 Responses to “O que se perde na tradução”
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Tem toda a razão! No caso da poesia não me faz sentido uma tradução em que os poemas não estejam nas duas línguas. Como deve calcular, a opção por a edição não ser blingue não foi minha. De facto, só soube que ela não o era quando o livro estava para sair. Uma pena. E uma injustiça para com um poeta como Updike. Um abraço, ana luísa
Quando li a crítica ao 2666, reparei no facto de não mencionar o trabalho da tradução, ainda que diga, em determinado momento:
“E é em Santa Teresa que alguns dos múltiplos fios narrativos deste livro se atam, sem nunca oferecerem ao leitor – hipnotizado desde as primeiras páginas pela riqueza estilística da prosa de Bolaño, pela energia pura da sua linguagem – o alívio de uma explicação para o Mal que emerge de todo o lado, como que saído de um «poço negro».”
A «riqueza estilística» e a «energia pura da linguagem» são também fruto, presumo eu (isto é, presumo que leu a versão portuguesa), do esforço dos tradutores que verteram a obra para português. Contudo, nem puma palavra dedicou no texto a esse esforço.
Lamento apenas que, como habitualmente acontece em Portugal, dediquemos mais atenção ao tradutor quando as coisas correm menos bem, e pouquíssima quando correm bem. E eu, que sou leitor habitual do blogue, sinto isso, de forma muito nítida, nas suas críticas.
Um abraço,
Nuno
Prefiro pensá-lo segundo Benjamin. A tradução não é uma derrota, mas uma vitória: a sobrevivência da literatura passa pela leitura, que a tradução por definição é. O efeito «caudas do cometa» pode ser visto sob duas perspectivas: a que assinala uma perda de luz entre cada uma das caudas (cada uma das traduções e das traduções das traduções no caso da tradução indirecta) ou pode ser visto como um espectro de luzes que não tendem a apagar-se mas apenas derivam e podem incendiar, digamos assim, outras galáxias. A tradução tem então um paralelo claro com a tradição. Traduzir é trair: mas isso já bem o sabia Lautréamont . Porque a própria literatura é um crime e uma bênção. A tradução permite a sobrevivência da literatura precisamente na conjugação dessa iniciação no literário – ou seja na tradição, como deferência – com a sua traição – ou seja na novidade, como crime. O que fica dentro e não o que resvala é que é o literário. É na superfície que o crime acontece – onde a tradução actua. Entre continuidade e ruptura se garante assim a prevalência da tradição (o que nos permite dizer que «isto» é literatura), sem que isso implique a inexistência de ruptura, ou seja de leitura. É aqui que entra a tradução como traição, porque «isto» muda.
Caro Nuno Q.,
É verdade que o trabalho dos tradutores costuma ser rasurado das críticas literárias, mas eu tento, sempre que o espaço me permite, dizer o que penso desse trabalho essencial. Por razões óbvias, uma tradução má, que prejudica a recepção do texto, terá maiores probabilidades de ser referida do que uma boa tradução, que cumpre o seu papel. É um pouco o que acontece aos árbitros de futebol: o melhor elogio que se lhes pode fazer é não falar deles; quer dizer que o jogo decorreu com normalidade e ele, o árbitro, não teve influência no resultado.
Quando uma tradução me parece apenas correcta, geralmente não a menciono. Mas se a tradução for de facto muito boa, só por falta de espaço é que não o refiro. Se quiser confirmar, repare na última frase da minha crítica ao livro de Kazuo Ishiguro, publicada aqui há menos de um mês: http://bibliotecariodebabel.com/criticas/andamentos-crepusculares/.
Quanto a ‘2666′, houve duas razões para a omissão: por um lado, li o livro em provas não finais (ainda com algumas gralhas e sem os ajustes definitivos); por outro, o espaço que tinha mal dava para falar do livro, quanto mais da tradução.
Dito isto, a tradução de ‘2666′ parece-me boa e fiel à linguagem de Bolaño.
Por acaso acho que expedido está bem.
Na humilde opinião de quem, no gênero poesia, só traduziu 3 poemas de Kaváfis, com o conhecimento parco de uma brasileira filha de grego (imaginem!), vou dizer que achei mais grave que “as últimas provas do romance” estivessem onde, na verdade, eram “as provas do último romance”, porque se perdeu o sentido do derradeiro que o poeta pretendeu. Quanto ao “expedidas”, que tal “despachadas”?