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O relatório de Brodie

O APOGEU DE MISS JEAN BRODIE_WEB

O Apogeu de Miss Jean Brodie
Autora: Muriel Spark
Tradução: Margarida Periquito
Editora: Ahab
N.º de páginas: 154
ISBN: 978-989-96340-4-6
Ano de publicação: 2010

Edimburgo, anos 30. Na Escola Feminina Marcia Blaine, a professora Jean Brodie é olhada de viés pelo restante pessoal docente e sobretudo pela directora, Miss Mackay, que não concorda com os seus métodos pedagógicos, e por isso aperta aos poucos o cerco, procurando pretextos para a expulsar. Indiferente às ameaças, Jean conta com a lealdade de seis alunas que desde cedo «preparara de forma a merecerem a sua confiança»: Sandy, Rose, Mary, Jenny, Monica e Eunice. Um pequeno clã a que ela dedica os melhores anos – aquilo a que chama repetidamente o «apogeu» da sua vida –, na esperança de que elas se tornem a «nata da nata». Isto é, raparigas esclarecidas, capazes de reconhecerem o seu próprio apogeu (quando ele chegar) e de o viverem em plenitude.
O voluntarismo algo sufocante de Miss Brodie – feito de tardes à sombra do ulmeiro, a falar de tudo o que não vem no programa, seja pintura italiana antiga ou os «cuidados a ter com a pele», as últimas férias no Egipto ou os devaneios sentimentais da professora; mais as visitas aos museus, os passeios pela zona histórica da cidade, os lanches em sua casa, etc. –, esse voluntarismo rapidamente se ensombra, à medida que as raparigas crescem e o leitor se apercebe que a influência da professora é tão bem intencionada quanto perigosa. No fundo, Brodie é uma manipuladora que molda as alunas à sua imagem e semelhança, uma figura autoritária que não esconde sequer um fascínio ingénuo por Mussolini. De resto, é pela frente política, mais do que pelas inconveniências da sua vida amorosa, que Miss Mackay consegue provocar a queda de Brodie, depois da morte em Espanha de uma aluna por ela incentivada a combater ao lado de Franco.
Quando analisa as discípulas preferidas, a professora sugere que Sandy tem intuição mas lhe falta instinto, enquanto Rose tem instinto mas pouca intuição. Já ela, que deveria possuir os dois atributos, na verdade não possui nenhum. O que explica a incapacidade para compreender que a rapariga escolhida para confidente será aquela que a trairá, não apenas através da denúncia à directora mas também pela conversão ao catolicismo (ao ponto de se tornar freira), precisamente a religião que Brodie descartava por não ser digna de quem pensa pela própria cabeça.
A singularidade do romance está menos na história do que no requinte e sofisticação de Spark, ao contá-la. Recorrendo a sucessivas prolepses e analepses (com predomínio das primeiras), vão sendo eliminadas as barreiras do tempo: passado, presente e futuro coexistem no mesmo plano, permitindo-nos vislumbrar antecipadamente os contornos do falhanço de Brodie. Exemplo magnífico de inteligência narrativa e perfeição estilística, o livro mostra uma escritora no apogeu das suas capacidades. Mas, diferença importante em relação a Miss Brodie, um apogeu verdadeiro.

Avaliação: 9/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]



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