O senhor Valéry no Barreiro

«O senhor Valéry não era bonito. Mas também não era feio.
Há muito tempo atrás havia decidido trocar os espelhos por quadros de paisagens. Desconhecia, pois, o seu aspecto exterior actual.
O senhor Valéry dizia:
— É preferível assim.
E explicava:
— Se me visse bonito ficaria com medo de perder a beleza; e se me visse feio ficaria com ódio às coisas belas. Assim, não tenho medo nem ódio.
E sem ser bonito nem feio, o senhor Valéry passeava pelas ruas da cidade, olhando, com atenção, para as pessoas com quem se cruzava.
Ele explicava:
— Se me sorriem percebo que estou bonito, se desviam os olhos percebo que estou feio.
Teorizando dizia ainda:
— A minha beleza é actualizada a cada instante pela cara dos outros.
Por vezes, depois de se cruzar com alguém que desviava os olhos, o senhor Valéry, percebendo, passava a mão pelo seu cabelo, penteando-se ao mesmo tempo que procurava um outro rosto dentro de si próprio, agora mais agradável.
O senhor Valéry comentava, em jeito de conclusão:
— O espelho é para os egoístas.
— E o desenho? — perguntaram-lhe.
— Hoje não há desenho — respondeu o senhor Valéry, e despediu-se logo de todos com um movimento brusco, mas gentil.
As pessoas gostavam do senhor Valéry.»

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A companhia teatral Vigilâmbulo Caolho apresenta pela última vez, hoje e dia 9, no Auditório Municipal Augusto Cabrita (Barreiro), pelas 16h00, o espectáculo O Senhor Valéry, a partir do livro de Gonçalo M. Tavares, com Carlos Marques, Nicolas Brites e Pedro Manuel, dirigidos por Júlio Mesquita.



Comentários

One Response to “O senhor Valéry no Barreiro”

  1. Patrícia on Abril 4th, 2009 1:43

    Aproveito para referir que no Teatro da Vilarinha (Porto, na Estrada da Circunvalaçao) também a companhia de teatro Pé de Vento estreará “O Senhor Valéry” no mes de Abril (18).

    Encenaçao: Joao Luíz
    Interpretaçao: Rui Spranger e Anabela Nóbrega

    Cumprimentos e bom teatro!

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges