O terror da beleza

servidoes

Servidões
Autor: Herberto Helder
Editora: Assírio & Alvim
N.º de páginas: 117
ISBN: 978-972-37-1696-2
Ano de publicação: 2013

Há no primeiro livro de José Tolentino Mendonça (Os Dias Contados, 1990), um poema intitulado A infância de Herberto Helder que começa com o verso: «No princípio era a ilha». O que cria a tensão nesse texto é o diálogo entre a própria infância de Tolentino Mendonça – evocada explicitamente no poema – e a imaginária infância de Herberto Helder, de cuja vida sabemos sempre tão pouco (quase nada), confinadas as duas meninices a um território comum: a ilha da Madeira. Uma das muitas surpresas que Servidões nos reserva é a oportunidade de vislumbrarmos alguns fragmentos da infância real de Herberto Helder. No longo poema em prosa que abre o livro, o poeta fala-nos de como era crescer «no meio do atordoamento de flores e animais», atento «às matérias e sopros do mundo expressos em imagens e vozes autónomas».
Se a poesia é «um início perene, nunca uma chegada seja ao que for», a «interminável preparação» talvez tenha começado nesses primeiros anos, com a aprendizagem de «certas astúcias», como «apanhar a ocasional distracção das coisas, e desaparecer; fugir para o outro lado, onde elas nem suspeitam da nossa consciência», para depois «enriquecer e intoxicar a vida com essas misteriosas coisas roubadas». A «vida» que é sempre, na matéria «ferozmente parcialíssima» do poema, uma «paisagem transfigurada». Ao regressar à ilha, após muitos anos de ausência, o poeta não a reconheceu: «nenhuma imagem confirmada pelo olhar, ou esse odor de vaza marinha, de jasmins, e o vento trazido das montanhas, nada era vivo, actual, reiterado, circulatório, nada me reatava, um ímpeto do espírito, uma religação». Ainda assim, sabe que foi ali que forjou a sua liberdade («o meu espírito seria daí em diante irredutível, não me sujeitaria nenhuma regra alheia») e o esboço de uma existência «subtil, unida e invisível que o fogo celular das imagens devorava».
Neste livro crepuscular, Herberto relembra-nos a cada passo que já ultrapassou os 80 anos, mas a extraordinária combustão lírica da sua escrita como que o desmente. O corpo vai ficando cego mas ainda é «sôfrego», cheio de energia sexual, «fedendo a testosterona e sangue»:

(…) farejo-te,
mordo-te a nuca, lambo,
e faminto me meto por ti adentro,
rebento os selos,
marco-te a fogo,
levíssima visita à minha sêca luz e arrebatada fome, (…)

Como sempre, o poeta devora o mundo e é por ele devorado. Mas se noutro tempo olhou a morte de frente, agora não: «agora sou olhado, e estremeço / do incrível natural de ser olhado assim por ela». O fim é uma ideia fixa, vai montando o cerco e insinuando-se como uma obsessão: «bom seria entrar no sono como num saco maior que o meu tamanho, / e que uns dedos inexplicáveis lhe dessem um nó rude, / e eu de dentro o não pudesse desfazer».
Na maior parte dos poemas, aflora uma sensação de perda, a consciência de que «tudo acaba: canção, talento, alento, papel, esferográfica». Pode ainda haver vontade de escrever o «poema fixo entre as palavras móveis», mas «a arte da iluminação foi toda ao ar pelos fusíveis fora». O «passarão» a quem vai falhando o «sopro», que perdeu o ouvido absoluto para «as músicas sumptuosas do verso livre», resigna-se: «já não tenho mão com que escreva nem lâmpada, / pois se me fundiu a alma, / já nada em mim sabe quanto não sei / da noite atrás da luz: livros, frutas na mesa, o relógio que mede / minha turva eternidade». Resta-lhe procurar a «perfeição de poucas linhas», os versos rápidos, o poema curto, «trémulo e severo», uma arte tão «breve» quanto «furtiva».
Herberto zanga-se, exalta-se, imagina infernos, vitupera a geração «inclitamente vergonhosa» que em testamento deixou uma «montanha de merda», procura «corpo a corpo o nada disso tudo», mas continua a elevar às alturas, como nenhum outro na poesia portuguesa, a música da língua:

até cada objecto se encher de luz e ser apanhado
por todos os lados hábeis, e ser ímpar,
ser escolhido,
e lampejando do ar à volta,
na ordem do mundo aquela fracção real dos dedos juntos
como para escrever cada palavra:
pegar ao alto numa coisa em estado de milagre: seja:
um copo de água,
tudo pronto para que a luz estremeça:
o terror da beleza, isso, o terror da beleza delicadíssima
tão súbito e implacável na vida administrativa

Avaliação: 9,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]



Comentários

One Response to “O terror da beleza”

  1. IN on Junho 12th, 2013 23:48

    É, na minha modesta opinião, e com todo o respeito e admiração por este grande poeta, a obra mais fraca de toda a sua bibliografia. A meu ver, faria bem melhor ter renegado esta obra em vez da fabulosa “apresentação do rosto”. Quanto à recensão, prefiro não comentar.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges