O triunfo da morte (3)

«Lembro-me de estar no Museu do Prado e de me encontrar com O Triunfo da Morte, de Brueghel. Foi há anos, eu já tinha pouco tempo, devia ir-me embora, mas entrei noutra sala – e lá estava. Conhecia bem aquele quadro, de reproduções. Ali estava. Existe mesmo.
Não poderia descrever aqui o caos generalizado daquele mundo atacado por esqueletos ceifando, degolando, enredando, afogando, enterrando homens e mulheres de todas as classes e idades e profissões – que, em pânico, gritam, fogem, tentam ainda ignorar o massacre. Não é sequer uma dança macabra, mas a mais simples chacina. Um Apocalipse sem Jerusalém celeste.
Há muito que ver. Num canto, um esqueleto mostra a um rei, vestido de arminhos e armadura, uma ampulheta inexorável. Algures, outro esqueleto apalpa as mamas de uma nobre roliça, enquanto um terceiro serve uma sopa de tíbias e caveira. Noutro canto, dois amantes trocam melodias e palavras de amor – logo imitados por um esqueleto, cheio de cínica complacência.
Por que não consigo desligar os olhos deste quadro?
Primeiro, porque é o maior jogo de massacre que conheço. Sem paciência: a morte tem de ser toda – e já – e não há desculpas para ninguém! Porquê? Bem, é assim. Sincronia absoluta, sem pais e filhos, sem eternidade de um testemunho a passar. Tudo o que queremos ver, o que sempre quisemos – tudo nos é dado de uma só vez. Alucinantemente.
Em segundo lugar, porque há nessa sincronia tantas histórias citadas, tantas anedotas e provérbios e exegeses bíblicas e paródias e ironias e antíteses! O olhar fascinado não pára de desvendar micro-narrativas. A esse nível, e para voltar ao teatro, acaba por ser menos Sarah Kane, apesar do horror, do que Ghelderode: mitos, fábulas, um imaginário que ri de si mesmo. Isto é, o gosto de contar, de se deixar adivinhar. A morte cessa todo o dizer; mas ela própria é fonte de texto.»

[in Substâncias Perigosas, de Pedro Eiras, Livrododia, 2010]



Comentários

One Response to “O triunfo da morte (3)”

  1. «A morte cessa todo o dizer; mas ela própria é fonte de texto.» | *semiose.net on Maio 11th, 2010 15:02

    […] a partir de excerto de “Substâncias Perigosas” de Pedro Eiras, publicado no Bibliotecá…  SHARETHIS.addEntry({ title: "«A morte cessa todo o dizer; mas ela própria é fonte de texto.»", url: "http://semiose.net/%c2%aba-morte-cessa-todo-o-dizer-mas-ela-propria-e-fonte-de-texto-%c2%bb-611.html" }); var a2a_config = a2a_config || {}; a2a_config.linkname="«A morte cessa todo o dizer; mas ela própria é fonte de texto.»"; a2a_config.linkurl="http://semiose.net/%c2%aba-morte-cessa-todo-o-dizer-mas-ela-propria-e-fonte-de-texto-%c2%bb-611.html"; a2a_config.onclick=1; […]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges