O último teorema de Salander

A Rapariga que Sonhava com uma Lata de Gasolina e um Fósforo
Autor: Stieg Larsson
Título original: Flickan Som Lekte Med Elden
Tradução: Mário Dias Correia
Editora: Oceanos
N.º de páginas: 611
ISBN: 978-989-23-0345-1
Ano de publicação: 2008

Em Os Homens que Odeiam as Mulheres, primeiro romance de Stieg Larsson, a figura central é Mikael Blomkvist, um jornalista caído em desgraça que consegue reabilitar o seu nome, e o da revista que dirige (a Millennium, que dá nome à trilogia), ao desmascarar um corrupto (Wennerström), depois de encontrar o paradeiro de uma mulher desaparecida desde 1966. A ajudá-lo em ambos os casos, com a sua quase infinita capacidade dedutiva e de investigação, está Lisbeth Salander, uma hacker sobredotada, toda ela piercings, tatuagens, paranóias e problemas de integração social, a meio caminho entre Lara Croft e a Pipi das Meias Altas.
A Rapariga que Sonhava com uma Lata de Gasolina e um Fósforo é justamente Lisbeth e os papéis entretanto inverteram-se: Blomkvist passa para segundo plano, cabendo-lhe agora reunir provas da inocência dela e salvar-lhe a vida, retribuindo o que ela fez por ele no primeiro volume. No centro do vasto enredo está o duplo homicídio de Dag Svensson (jornalista) e Mia Johansson (criminologista), um casal em vias de denunciar uma rede de tráfico humano, responsável por introduzir e explorar, na Suécia, prostitutas dos países de Leste. Quando uma equipa da polícia, chefiada pelo inspector Bublanski, começa a investigar, as suspeitas recaem logo sobre Salander, cujas impressões digitais estão na arma do crime: um Colt 45 Magnum (semelhante ao que foi usado no assassínio de Olof Palme). O facto de o tutor de Lisbeth, Nils Bjurman, também aparecer morto, com um balázio disparado pelo mesmo revólver, complica ainda mais a situação.
Se excluirmos o empenhamento na denúncia dos vários tipos de violência contra as mulheres, bem como do «descalabro» dos sistemas judicial e de acompanhamento psiquiátrico suecos (temas caros ao autor, enquanto repórter da revista Expo), esta história é um thriller que cumpre as regras do género: muito suspense, muitas cenas de acção e um final extraordinariamente inverosímil. O golpe de génio de Larsson é assumir os estereótipos narrativos e dar-lhes a volta, criando com eles um labirinto que o leitor percorre avidamente, mas sem se sentir perdido. E se há segredos (como a identidade de um certo criminoso chamado Zala, por exemplo) que parecem mais inacessíveis do que o último teorema de Fermat, o mais certo é Lisbeth Salander matar dois coelhos de uma cajadada, chegando a Zala no preciso momento em que resolve o mais famoso dos enigmas matemáticos por si mesma (isto é, sem o auxílio dos computadores a que Andrew Wiles recorreu para chegar à sua solução, em 1993).

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no número 76 da revista Ler]



Comentários

3 Responses to “O último teorema de Salander”

  1. Flávia on Março 24th, 2009 18:22

    Na verdade o nome do livro é “Os homens que não amavam as mulheres”

  2. Quase a chegar | Bibliotecário de Babel on Maio 12th, 2009 6:56

    […] Falta pouco para os muitos fãs de Stieg Larsson, entre os quais me incluo, deitarem mãos (e olhos, e horas de sono) ao terceiro volume da trilogia Millennium: A Rainha no Palácio das Correntes de Ar. O livro, editado pela Oceanos, estará cá fora no próximo mês. No Bibliotecário de Babel, já houve recensões ao volume 1 (aqui) e ao volume 2 (aqui). […]

  3. Boas novas para os fãs de Stieg Larsson | Bibliotecário de Babel on Junho 30th, 2009 15:59

    […] 1) Na próxima terça-feira, dia 7 de Julho, chega às livrarias portuguesas A Rainha no Palácio das Correntes de Ar (Oceanos), último volume da trilogia Millennium, iniciada com Os Homens que Odeiam as Mulheres e A Rapariga que Sonhava com uma Lata de Gasolina e um Fósforo. […]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges