Olímpio

De todos os fazedores de livros, ele era o mais discreto. Estava lá atrás, nos bastidores, a meter em página os textos dos outros, a compor as manchas gráficas, a zelar pela harmonia visual que não passa despercebida aos leitores mais exigentes. Aqueles leitores que provavelmente liam o seu nome, em letras minúsculas, nas fichas técnicas dos livros da & Etc, da Tinta da China, da Averno ou das edições de teatro dos Artistas Unidos.
Chamava-se Olímpio Ferreira, tinha quarenta anos, dois filhos pequenos e uma espécie de reserva nos contactos sociais que ainda hoje ignoro se nascia da timidez ou da humildade. Ao apresentá-lo no extinto blogue Barnabé, Rui Tavares apelidou-o de “nosso homem da sombra” e acrescentou: “É o gajo mais culto do Barnabé, razão pela qual diz que não sabe se vai escrever.” Não escreveu muito, de facto. Mas o que escreveu deixou-nos com pena de que o “homem da sombra” nunca tivesse desejado chegar-se mais à luz.
Agora que me deram a notícia, com a violência absurda do que não conseguimos compreender, só me ocorrem imagens: encontros por acaso em livrarias, manhãs de sábado no jardim do Príncipe Real, tardes na Feira do Livro com carrinhos de bebé, sacos cheios de preciosidades e uma alegria que parecia estar a salvo de tudo (mas não estava).

[Havia outros posts previstos para hoje, nomeadamente as inevitáveis listas dos melhores livros de 2007 para o BdB, mas tudo isso terá que ficar para amanhã. Não consigo mesmo escrever mais. Desculpem.]



Comentários

12 Responses to “Olímpio”

  1. Rui Bebiano on Janeiro 1st, 2008 1:37

    Que notícia para esta noite! O Olímpio foi meu aluno quando andou por Coimbra, aí pelos finais dos anos 80. Guardo dele uma imagem de discrição e de curiosidade por tudo, mas também de afecto. No fundo, o mais importante de tudo.

  2. Fernando Venâncio on Janeiro 1st, 2008 13:14

    Zé Mário,

    ‘Este’ era o melhor post que tinhas para hoje. Não pela morte do Olímpio, mas por teres de recordá-lo.

    Era um homem bom. Que se apagava (conheci-o de raspão na Cotovia) e de que eu só sabia que tudo quanto fazia o fazia bem.

  3. Suzana Ramos on Janeiro 2nd, 2008 17:04

    Zé, podia dizer tantas coisas, mas hoje não. Trabalhei com o Olímpio nas edições Cotovia, há muito tempo, durante alguns anos. O Olímpio tinha um sentido de humor brilhante. Lembro-me sempre da forma como subia as escadas da editora, em bicos de pés e em câmara lenta, como se não quisesse ser visto nem ouvido. E ríamos muito. Era mesmo um homem de sombra, mas não há homens de sombra capazes de ter tanta luz. E também era um esteta com uma educação extrema. Foi provavelomente o melhor livreiro de Lisboa e sabia sempre tudo – títulos, autores, editoras, datas de saída, o que quer que fosse. O Olímpio era naturalmente humilde, discreto e sábio porque vivia de livros em todos os sentidos. Prefiro pensar que é ele quem faz os livros de deus e dos anjos, se existirem.

  4. José Mário Silva on Janeiro 2nd, 2008 21:47

    Suzana, há quanto tempo…
    É verdade que o mundo não deixa de girar quando os amigos morrem de repente, a vida chama-nos de muitas maneiras, obriga-nos a seguir em frente, empurra-nos para as coisas de todos os dias: comprar iogurtes no supermercado, ir de metro para o trabalho, dar banho aos filhos, responder a e-mails. Mas há certos vazios que se demoram, uma tristeza que não passa mesmo quando à volta toda a gente ri.

  5. Álvaro Garrido on Janeiro 5th, 2008 19:14

    Passei muitas noites divertidas com o Olímpio em cafés de Coimbra, em bares e na rua, sempre em rodas de amigos cujo traço mais comum talvez fosse o de gostarmos de rir. Fui quase colega de curso do Olímpio. Creio que não eramos do mesmo ano do Curso de História. A minha homenagem ao Olímpio faço-a com aquilo que de mais forte guardo dele: um invulgar sentido de humor, uma capacidade singular para brincar perversamente com coisas seríssimas nas quais ele acreditava (em Deus, por exemplo) e uma capaciadde de expressão que fazia dele um actor sem igual. Só pode ter sido minha a falha de não ter sido ainda mais amigo do Olimpio. Um abraço pá! Álvaro

  6. Daniel Abrunheiro on Janeiro 7th, 2008 19:40

    O Olímpio é.

  7. PARDAL on Janeiro 8th, 2008 11:08

    Fomos colegas na Secundária (em Águeda), descobrimos a Rádio (ainda na forma Pirata) na Botaréu, aprendemos Xadrez juntos, e tertuliávamos sobre politica. Eu era o “esquerdalho”. Em Coimbra encontrávamo-nos no bar da AAC e por vezes nos corredores da RUC. Estive com o Olimpio uma única vez nos últimos 16 anos. Foi em Aveiro próximo de uma …. livraria.

  8. TERESA on Janeiro 10th, 2008 11:33

    Olimpio
    Conheci-o no Ciclo Preparatório Fernando Caldeira em Águeda. Fomos colegas de turma até ao 12ºAno. Tinhamos em comum a nota em Educação Fisica. Um aluno brilhante…um amigo discreto e timido…e no entanto como nos riamos no átrio da Escola Secundária de Águeda, eu, ele, a Inês Cayres…

  9. Olímpio Ferreira | 1967-2007 « Grupo de Pais da Fundação D. Pedro IV on Janeiro 14th, 2008 12:17
  10. Bibliotecário de Babel – Lembrar o Olímpio on Março 8th, 2008 9:24

    […] Padaria do Povo (Rua Luís Derouet, 20, 1º, Campo de Ourique, Lisboa). Um grupo de amigos do Olímpio Ferreira vai evocá-lo com textos, versos e outras formas de memória. Será igualmente posto a circular um […]

  11. pedro paixäo on Maio 8th, 2008 13:15

    Só hoje, tão tarde, soube de uma pessoa por quem tinha a maior admiração. choro a sua ausência

    pedro paixão

  12. Bibliotecário de Babel – Um ano sem o Olímpio on Janeiro 5th, 2009 0:39

    […] de balizas que nos orientem, pelo menos quando olhamos para trás. Há precisamente um ano, perdemos o Olímpio Ferreira (e cabe muita gente dentro deste plural). A sua ausência, não sei porquê, magoou-me mais do que […]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges