Onze metros quadrados

O Quarto de Jack
Autora: Emma Donoghue
Título original: Room
Tradução: Cristina Correia
Editora: Porto Editora
N.º de páginas: 333
ISBN: 978-972-0-04343-6
Ano de publicação: 2011

A escritora irlandesa Emma Donoghue inspirou-se em várias histórias de sequestro prolongado – Elizabeth Fritzl, Natascha Kampusch, entre outras – para construir um romance intenso sobre o mal absoluto e a resiliência humana, sobre os abismos do trauma psicológico e o poder do amor. Mesmo sem ter vencido nenhum dos grandes prémios literários para que foi nomeado (chegou à shortlist do Man Booker e do Orange Prize), o livro fez parte das listas dos melhores de 2010 na imprensa internacional. E com toda a justiça.
Aos cinco anos, a única realidade que Jack conhece é a do quarto minúsculo (11 metros quadrados) onde nasceu e de onde nunca saiu. Quando foi raptada, sete anos antes, a mãe ainda adolescente sujeitou-se a todo o tipo de abusos por parte de Nick, o homem que a escondeu num barracão ao canto do jardim das traseiras de sua casa. Para Jack, o universo acaba nas paredes do quarto. O Lá Fora, que vai entrevendo nos programas de televisão, tem qualquer coisa de fantasmagórico, como se não fosse verdadeiro. A única realidade real é a que pode tocar e sentir, a realidade dos objectos que são nomeados com maiúscula: a Cama, o Candeeiro, a Banheira, a Clarabóia, o Tapete.
Jack não se sente preso porque nunca saiu daquele espaço fechado, ao mesmo tempo útero e caverna de Platão. Sabe que Nick existe porque o ouve à noite, fazendo ranger a cama da mãe, enquanto ele se esconde no Guarda-Fatos. A mãe, não. A Mamã. Entre tantos arquétipos, ela é o arquétipo absoluto, o alfa e omega. A relação entre mãe e filho – quase fusional (Jack ainda mama) – ocupa todo o espaço afectivo e físico das respectivas vidas, coagula o próprio tempo. Mas o idílio simulado, feito de rotinas e rituais que reforçam uma cosmogonia a dois, torna-se insustentável. A mãe acaba por não conseguir esconder a dor, a angústia e a necessidade da fuga.
Donoghue foi muito inteligente na escolha do narrador. Tudo o que acontece, tanto na claustrofóbica primeira metade do livro (sobre a clausura no Quarto) como depois da libertação, surge na primeira pessoa, contado por Jack. E o que temos é uma voz que nos fascina e perturba, uma voz que normaliza o horror do cativeiro com uma desarmante lógica infantil. São essa voz e essa lógica, captados de forma muito subtil por Donoghue, que fazem deste romance um notável exercício de linguagem (inventivo sem deixar de ser verosímil) e uma investigação lúcida sobre a forma como uma criança se pode desenvolver no isolamento total, sem interacções sociais e dependente do amor materno.
Quando Jack encontra por fim o grande mundo, o leque de personagens amplia-se, a tragédia ganha outros contornos (com o colapso da mãe) e a narrativa perde algum foco, sobretudo quando deriva para uma crítica da previsível vampirização da história por parte dos media. O choque com a realidade é tremendo e Jack acaba por oferecer uma compreensível resistência à mudança. Ao integrar-se na sociedade, ao autonomizar-se da mãe, a criança sofre de uma só vez todas as dores de um crescimento adiado. Donoghue revela-nos com delicadeza os cambiantes deste embate e fecha o livro com uma espantosa cena de despedida, em que Jack, de regresso ao Quarto, diz adeus àquele espaço que agora parece mais pequeno («Encolheu?»), um inferno que para ele foi o jardim do Éden. «Olho para trás mais uma vez. É como uma cratera, um buraco onde algo aconteceu. Depois, saímos pela porta.» E é como se finalmente, cortado o cordão umbilical, pudesse verdadeiramente nascer.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no n.º 107 da revista Ler]



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