Ortografias

Há cerca de uma semana, o Expresso passou a adoptar o Acordo Ortográfico e tenho a dizer que ainda não me refiz do choque. Incapaz de escrever «objectivo» sem ‘c’ ou «excepções» sem ‘p’, deixei os ajustes ortográficos ao FLIP, que varre com esmero as prosas impuras antes de elas entrarem em página. Ainda assim, é muito estranho passar os textos a pente fino, durante o fecho do jornal, e ser forçado a reprimir o impulso de corrigir a grafia abstrusa de certas palavras, porque de súbito essa grafia é a norma (e abstrusos, ao que parece, somos nós, os que mostramos relutância em aceitar o Acordo).
Depois do esforço (falhado) de assimilação das novas regras, cheguei a casa e pus-me a ler o romance Flores Azuis, da brasileira Carola Saavedra (Livros de Seda). E que vejo? Nem mais nem menos do que uma rectificação ortográfica completa do Português do Brasil para o Português de Portugal. Quer isto dizer que no jornal me obrigam a escrever «objectivo» sem ‘c’, mas depois esse ‘c’ desaparecido em combate reaparece onde não devia: ou seja, no livro de Carola, que dispensa bem o dito ‘c’, antes ou depois do Acordo.
Alguém me diz se isto faz algum sentido? Não faz, pois não?



Comentários

5 Responses to “Ortografias”

  1. Mak on Julho 1st, 2010 13:49

    Tudo bem que o hábito custa a vencer, mas este Acordo continua a soar-me a lobotomia da língua portuguesa. E, em tempos, a lobotomia também era considerada uma terapêutica avançada no plano clínico…

  2. Ana Baltazar on Julho 1st, 2010 15:17

    …alguém me diz se isto é MESMO um facto consumado? Não há nada que possamos fazer…?
    Ainda que nos recusemos a escrever dessa forma… a curto prazo seremos obrigados a LER uma língua que não reconhecemos como nossa?!!…

    Há uma “Iniciativa Legislativa de Cidadãos” (pela revogação do Acordo) no seguinte endereço:

    http://ilcao.cedilha.net/

    Já é tarde demais…?

  3. isabel ribeiro on Julho 3rd, 2010 16:43

    Gostaria de poder responder, mas também faço parte dos abstrusos. Só sei que “exceções,retificação, objetivo, correção, atual, ótimo, ….e por aí fora, não têm a mesma textura. Sinto-as coxas.
    Continuarei a escrever da mesma forma. Lobo Antunes fará o mesmo. Sigo os mestres!!!!
    Os alunos não sabem escrever, com a introdução do acordo só aumentará o erro ortográfico, portanto, desde que a comunicação se estabeleça, como é teoria de tantos, vale tudo. Não pretendo tirar olhos a niguém, só me recuso a tirar os ps e os cs e mais qualquer coisa que tenha a ver com o dito.

    De fato o teto resultou de uma péssima conceção do arquiteto. Os tetos tem de ser arquitetados sem se perder o caráter da função dos mesmos e nunca permitir fraturas nos mesmos.
    fraturas

  4. cris on Julho 6th, 2010 15:08

    Para mim é impossível olhar para “conceção” sem ler “concessão”. E por aí fora. Sempre gostava de saber se, agora que escrevemos “Egito”, também devemos escrever e falar em “egícios”.
    Mas a mais hilariante deve ser “espetadores”… serão indivíduos que espetam?

  5. Rosa Azevedo on Julho 8th, 2010 16:27

    Não, não faz… Mas é tão previsível. O que acho mais grave nesta tua história é que se corrija para “português” o “brasileiro”. É um atestado de estupidez que a mim me revolta.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges