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Os inefáveis
«Os gatos são palavras com pêlo. Os gatos, como as palavras, rondam à volta dos humanos sem nunca se deixarem domesticar. É tão difícil meter um gato num cesto quando temos um comboio para apanhar do que ir à nossa memória caçar a palavra exacta e convencê-la a tomar o seu lugar na página em branco. Palavras e gatos pertencem ambos à raça dos inefáveis.»
[in Dois Verões, de Erik Orsenna, trad. de Luís Ruivo Domingos, Teorema, 2009]
publicou o Bibliotecário de Babel às 22:48 de Terça-feira, 4 de Agosto de 2009 para o arquivo Geral.
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In (não)¨+ fa ( do verbo femi, grego antigo para ‘falar)+vel (sufixo de qualidade)=inefável= ‘o que não pode ser dito’
AS PALAVRAS PODEM E DEVEM SER DITAS.
OS PARAÍSOS ARTIFICIAIS
Na minha terra, não há terra, há ruas;
mesmo as colinas são de prédios altos
com renda muito mais alta.
Na minha terra, não há árvores nem flores.
As flores, tão escassas, dos jardins mudam ao mês,
e a Câmara tem máquinas especialíssimas para desenraizar as árvores.
Os cânticos das aves – não há cânticos,
mas só canários de 3º andar e papagaios de 5º.
E a música do vento é frio nos pardieiros.
Na minha terra, porém, não há pardieiros,
que são todos na Pérsia ou na China,
ou em países inefáveis.
A minha terra não é inefável.
A vida da minha terra é que é inefável.
Inefável é o que não pode ser dito.
Jorge de Sena
O erro de português («do que» em lugar de «como») resulta da transcrição ou consta mesmo do original? Se sim, é pena porque dá logo vontade de ler o livro na língua original…
Talvez por isso
prefiro os cães
que olham a lua cheia de nada
Rita,
O erro consta do original, claro. Quando transcrevo qualquer coisa de um livro, não altero uma vírgula (mesmo que essa vírgula esteja mal colocada). Agora, não deixa de ser irónico este erro básico do tradutor, porque o livro é justamente sobre o trabalho de tradução e as dificuldades a ele associadas.
Com erro e tudo, adorei este texto, e já o repassei a dois amigos que amam gatos. Obrigada! :-))
Se não é deslize de transcrição (perfeitamente possível), então é grave, se ainda por cima me diz que o livro é sobre os problemas da tradução! Bom, sendo assim, e a julgar por esta amostra, mais vale comprar a versão original ou a tradução noutra língua. Será que o livro não teve revisão?
Cumprimentos!
O erro é efectivamente grave,sobretudo porque revela desatenção, para não dizer descuido, o que definitivamente deve evitar-se quando se procura traduzir, na razão do respeito que o autor e os leitores devem merecer.
Deixo ainda uma sugestão para o José Mário, se me permite. Em casos como este, em que os textos transcritos apresentem gralhas ou erros, seria porventura útil acrescentar uma nota que deles desse conta. Por uma questão de pedagogia.
Miguel,
Sugestão aceite. Procurarei apontar os erros, sempre que os detectar. E conto também com a atenção (e a exigência) dos leitores deste blogue.
Eis o original:
«Les chats sont des mots à fourrure. Comme les mots, ils rôdent autour des humains sans jamais se laisser apprivoiser. Il est aussi difficile de faire entrer un chat dans un panier, avant de prendre le train, que d’attraper dans sa mémoire le mot juste et le convaincre de prendre sa place sur la page blanche. Mots et chats appartiennent à la race des insaisissables.»
Erik Orsenna, Deux étés, Fayard, 1997, pág. 31.
Penso ser também muito discutível traduzir «insaisissables» (‘o que é difícil de apanhar; o que não se deixa apanhar’) por «inefáveis».
De facto, acho que “inapreensíveis” seria uma tradução mais certeira do que “inefáveis”.
E embora seja uma preferência pessoal (por considerar a primeira oração deselegante) acho que seria mais aconchegador dizer que “os gatos são palavras felpudas”.
– António