Os pulmões (e o resto) de Monterroso

Bárbara Jacobs, viúva de Augusto Monterroso, doou o espólio do escritor guatemalteco à Universidade de Oviedo. São mais de cinco toneladas de manuscritos, desenhos, notas, arquivos, livros com dedicatórias, primeiras edições e todo o tipo de documentos, acumulados durante a vida pelo autor de centenas de geniais textos curtos mas apenas um romance (O Resto é Silêncio, Oficina do Livro, 2007).

desenho Monterroso
Toureiro desenhado por Monterroso (incluído no espólio)

Que no meio de tanta tralha, que inclui todos os prémios e condecorações atribuídos ao longo dos anos, conste uma radiografia dos seus pulmões e um calendário de 1986 (ilustrado pela imagem de uma pin-up, ao melhor estilo das oficinas de automóveis), diz bem da ironia com que Monterroso olhava para si mesmo e para esse território de ilusões a que chamamos posteridade.
Uma ironia bem expressa neste fragmento do livro Movimiento Perpétuo:

A LO MEJOR SÍ

Pero lo poco que pudiera haber tenido de escritor lo he venido perdiendo a medida que mi situación económica se ha vuelto demasiado buena y que mis relaciones sociales aumentan en tal forma que no puedo escribir nada sin ofender a alguno de mis conocidos, o adular sin quererlo a mis protectores y mecenas, que son lo más.



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges