Os vários géneros da micronarrativa
Será que as histórias muito curtas terão matéria verbal suficiente para corresponder a géneros literários reconhecíveis? David Malki ! acha que sim e exemplifica:
«”A final tear dripped down her dying cheek. Cancer! On our wedding day!” [Drama/romance]
“A final tear dripped down her dying cheek. Tuberculosis! On our wedding day!” [Period romance]
“A final tear dripped down her dying cheek. Nanobots! On our wedding day!” [Sci-fi]
“A sultry bead of sweat dripped down her heaving bosom. Lust! On our wedding day!” [Erotica]
“A bloody tear dripped down her already-rotting cheek. Zombies! On our wedding day!” [Horror]
“A final tear dripped down her goggles to her sprocket-laden corset. Brass poisoning! On our wedding day!” [Steampunk]»
No thread de comentários há também algumas propostas hilariantes. E por que não pensar em versões aportuguesadas deste exercício de estilo?
Deixo alguns exemplos:
“Uma lágrima final correu em múltiplos rostos. Heterónimos! No nosso dia de casamento!” [Fernando Pessoa]
“Uma lágrima final, de sangue, na face da progenitora. Matricídio! No nosso dia de casamento!” [Camilo Castelo Branco]
“Uma lágrima final, galáxia recolhida pela colher na boca. Um poema contínuo! No nosso dia de casamento!” [Herberto Helder]
“Lágrima minha gentil, que te partiste tão cedo desta vida, descontente. Um soneto! No nosso dia de casamento!” [Luís Vaz de Camões]
“Uma lágrima final, helénica, no rosto de uma estátua junto ao mar. Luz mediterrânica! No nosso dia de casamento!” [Sophia de Mello Breyner Andresen]
“Uma lágrima final, para sempre, na tua face. Aparição! No nosso dia de casamento!” [Vergílio Ferreira]
“Uma lágrima final, de desgosto, quando ela percebeu que ele lhe punha os cornos. Homens! No nosso dia de casamento!” [Margarida Rebelo Pinto]
“Uma lágrima
– final –
caiu enquanto ela tricotava naperons numa marquise cheia de alumínios, em Linda-a-Velha, junto ao aparador com fotos da comissão em África do marido agora paralítico, a boina a preto-e-branco, tão perto da morte, numa moldura de falsa camurça, comprada na loja dos chineses. Os subúrbios! No nosso dia de casamento!” [António Lobo Antunes]
“Uma lágrima intertextual deixou de ser líquida no centro geométrico do Bairro. Senhores! No nosso dia de casamento!” [Gonçalo M. Tavares]
Alguém quer propor mais uns quantos?
Comentários
7 Responses to “Os vários géneros da micronarrativa”
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- Ler para ser outro em 3 de Fevereiro de 2012
- Cinco cartas inéditas de Julio Cortázar em 3 de Fevereiro de 2012
- “It’s not everyone who gets to be Cormac McCarthy” em 3 de Fevereiro de 2012
- III Encontro Livreiro em 3 de Fevereiro de 2012
- Vozes de escritores em 3 de Fevereiro de 2012
- Primeiros parágrafos em 2 de Fevereiro de 2012
- Ilustrarte 2012 em 2 de Fevereiro de 2012
- Livraria Aillaud & Lello no Facebook em 2 de Fevereiro de 2012


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MAS O RIO CONTINUA LINDO
Pensa o desempregado ao pular do Corcovado.
Miniconto de Antônio Torres. Excelente. Mas é preciso saber da canção “O Rio continua lindo…” e saber da bela vista lá de cima do Cristo Redentor.
Adoro minicontos. Direto do Twitter, há um de uma gaúcha (não sei o nome dela, foi dito numa palestra sobre literatura e tecnologia): CAFÉ
Eu, passado. Ele, expresso.
Excelente. Mas é preciso saber que o café pode ser passado no coador ou feito na máquina de expresso. O conto está todo aí para ser completado pelo leitor.
A lágrima, que o narrador hesita em classificar de líquida, outros decerto virão mais competentes para o dizer, cai, espera-se que indolor e inodora, sobre as patas do elefante, Ó deuses, exclamará, se for caso disso, e logo no dia de anos do cornaca!
JOSÉ SARAMAGO
“Uma lágrima de crocodilo, verdadeira, por entre a folhagem. Vida Selvagem! No dia do nosso casamento!” [David Attenborough]
“E houve então certo dia que essa lágrima desceu pelo mui “fermoso” rosto de El-Rei. D. João! E esse era o nosso dia de casamento” [Fernão Lopes]
“A lágrima que tudo chora, no rosto que tudo chora, caiu e disse triunfante: por Osiris ! No nosso dia de casamento” [O Livro dos Mortos do Antigo Egipto]
“E ela com grandes clamores invocou o Senhor misericordioso, inundando as faces de copiosas lágrimas. E indo ao encontro de Ezequiel, gemeu, Gafanhotos! No nosso dia de casamento!” [Bíblia]
“Arrancadas pela ventania seca e quente do inferno da vigília, as lágrimas germinadas no silêncio fértil dos sonhos tombaram e rolaram por cada uma das sete faces da princesa. Ver: LINEARIDADE, DIA DE CASAMENTO.” [Milorad Pavic]
“Limpando as lágrimas, assustou-se por ver as mãos manchadas de óleo. Simulacros! No nosso dia de casamento!” [Philip K. Dick]