Outros tempos para a lírica
1.
Estorninhos, um bando deles no céu
de Lisboa, forma informe contra a
luz exígua do crepúsculo. Eu vejo-os
no seu voo colectivo, como um corpo
que dança e se agita, etéreo. Abro a janela,
ponho a cabeça de fora, pasmo face a tanta
beleza. Atrás de mim, alguém buzina. O
carro da frente avançou uns quantos metros,
o trânsito da tarde segue o seu martírio lento.
É então que reparo nos outros condutores.
Olhos em frente, mãos hirtas no volante,
o rádio vomitando promessas publicitárias.
Ninguém vê os estorninhos, ninguém vê
os reflexos nas águas lisas do rio, ninguém
ergue os olhos para as nuvens vermelhas
lá longe, sobre o horizonte marinho.
Olho para a outra faixa: faróis acesos,
escapes fumegantes, a mesma indiferença.
Estou no meio de um engarrafamento,
a olhar para os estorninhos, imaginando
um poema em que cada verso seria
como cada um daqueles pássaros,
uma nuvem de pontos escuros
a pairar (com a cidade por baixo).
2.
“Pai, anda cá”, diz a minha filha.
Pela parede branca sobe uma formiga
negra. Minúscula, paciente, obstinada.
A minha filha encolhe o seu corpo
pequenino para olhar. Não sei se é
a primeira vez que vê uma formiga
mas é decerto a primeira vez que se
apercebe da gigantesca diferença
de escala que a separa do insecto.
A minha filha acompanha a subida
heróica da formiga pela parede
branca, vira-se para mim, sorri.
E é nesse espaço subitamente tenso,
criado entre a alegria infantil da
descoberta e o esforço irracional
da formiga, que o poema pode nascer,
mesmo se eu já desisti dele para
limpar o ranho que a minha filha,
absorta, deixou chegar até à boca.
3.
Que outros tempos para a lírica?
Todos. Estes, os próximos. Hoje,
amanhã. Podemos viver numa
sociedade de plástico, entre o
lixo televisivo e a depressão
suburbana, mas a poesia
ainda espera quem a saiba
desenterrar. Pode ser num
intervalo entre duas pedras
gastas, num ecrã de cibercafé,
no voo dos estorninhos. Por
muito feia que seja a realidade,
há sempre um ângulo que nos
leva à beleza.
Que outros tempos para a lírica?
Todos. Estes, os próximos. Hoje,
amanhã. Se a vertigem não nascer
a cada esquina, a culpa não é
da poesia, é dos poetas.
[Texto lido no III Encontro Palavra Ibérica, em Punta Umbría]
Comentários
One Response to “Outros tempos para a lírica”
- Melancólicas criaturas em 20 de Maio de 2012
- Primeiros parágrafos em 20 de Maio de 2012
- Um rato através da anaconda em 20 de Maio de 2012
- Os reflexos do mal em 19 de Maio de 2012
- O que aí vem (Esfera do Caos) em 19 de Maio de 2012
- Camané no ‘Avenida de Poemas’ em 18 de Maio de 2012
- Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’ em 18 de Maio de 2012
- Juan Marsé: “Ao romancista não basta a realidade, ele tem de ir sempre um pouco mais além” em 18 de Maio de 2012
- Cinco poemas de Liberto Cruz em 17 de Maio de 2012
- A pirâmide alimentar dos escritores em 17 de Maio de 2012


Receba por e-mail
Facebook
Twitter
Delicious
DoMelhor
feed RSS
email diário






Quem sabe se, cada poeta, no seu tempo, não terá feito a si mesmo essa interrogação? Cada um, a seu geito, um inovador. Poeta, ainda e sempre.