Parábola do embarque
Walt ou O Frio e o Quente
Autor: Fernando Assis Pacheco
Edição: Abel Barros Baptista
Editora: Assírio & Alvim
N.º de páginas: 95
ISBN: 978-972-37-1216-2
Ano de publicação: 2007 (1ª edição: 1978)
Publicada pela primeira vez em 1978, esta “noveleta” de Fernando Assis Pacheco tem como cenário os EUA e fala do Vietname “por coisas da causa”. Quatro anos após o fim da guerra colonial, ainda havia uma espécie de tabu sobre o tema na sociedade portuguesa e por isso o jornalista, que se estreava na ficção, situou a história nas docas de San Diego, quando “queria apenas dizer ‘Gare Marítima de Alcântara, Lisboa’, num ano qualquer entre 1961 e 1974″.
A estratégia compreende-se mas na verdade o que está ali, na lenta descrição de um embarque de soldados para uma guerra estúpida, é Portugal escondido com o rabo de fora. A carne para canhão pode ter nomes camones, como Scott Bombardeiro, Cold Prick, King Size ou Joãozinho Scarface, mas as suas acções e forma de falar não podiam ser mais tugas.
À frente de um pelotão, o “autor-narrador-alferes” vai descrevendo tudo o que se passa nas horas anteriores à entrada no Apocalypse, o barco-besta que os levará para Saigão e seus infernos. Isto é, preenche o vazio da espera com olhares sarcásticos sobre as “gajas” das Women of America que distribuem tabaco à tropa fandanga ou sobre as tricas entre oficiais “e outros monstros de aspecto saudável”.
Neste microcosmos ninguém é completamente bom nem mau, “antes pelo contrário”. Estes são homens aflitos, a disfarçar o medo. E a falarem um calão de caserna, bruto mas inventivo, intercalado pelo experimentalismo do autor, que baralha os códigos ficcionais e chega a armadilhar o seu texto contra a crítica. Que 30 anos volvidos os explosivos ainda funcionem, eis o prodígio.
Avaliação: 7,5/10
[Texto publicado na revista Time Out Lisboa]
Comentários
6 Responses to “Parábola do embarque”
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O pedro mexia há tempos também escreveu sobre o Walt. Porquê o súbito interesse?
O livro foi reeditado, no final de 2007, pela Assírio.
Quanto a mim, o interesse pela obra do Assis, de “súbito” só poderá ter a surpresa de quem não conheceu ou não conhecia um escritor – e, enquanto jornalista autor de um “Bookcionário”, por ex. – que não era gago… 😀
não sabia
Ente Lectual e as coisas que você saberá e eu nem sonho? Por isso é que vejo os blogs como tertúlias, mesmo sabendo que elas, como nós, também têm dias. Abraço 😀
fallorca, as coisas que saberei e o meu amigo não, curiosamente, fazem parte daquilo que não sei. Mas, esquecendo isso, temo não me ter feito compreender: não sabia que o Walt tinha sido reeditado; quanto ao resto, à excepção da não gaguez do autor, tendo já lido o livro há uns dois anos, não me deu grandes novidades.
Respeitosamente seu, etc