Passatempo ‘Efeito Borboleta’ (parte 2) – uma antologia

De João Sousa André:

«Uma prostituta checa tem pela primeira vez na vida um orgasmo no seu quarto na rua Zengrova, em Brno, o qual causa a erupção de um vulcão no campo de coca de um narco-traficante colombiano de Medellín.»

«No dia 28 de Junho de 1914, um domingo, o condutor do automóvel onde seguia o príncipe Francisco Fernando notou que se tinha enganado no caminho para o hospital de Sarajevo. Ao recuar para corrigir o erro, passou em frente do café Moritz Schiller, de onde saía Gavrilo Princip com uma sanduíche na mão. Esta marcha-atrás levou a que, quase 31 anos mais tarde, a 30 de Abril de 1945, uma segunda-feira, Mikhail Petrovich Minin entrasse no Reichstag, em Berlim, para erguer a bandeira soviética.»

De Jorge Vaz Nande:

«MOSCARDOS
Um padre desliga a box da TV Cabo, detonando uma bomba num jogo de futebol.
Mãe, toca o orvalho no quintal só mais uma manhã, faz desaparecer o cocó de cão das ruas da minha cidade.
Eu aprendo a dizer “name-dropping” e, ups, duzentos operários fabris no desemprego!
O músico diz “não foi para isto que se fez o 25 de Abril” – o cocó de cão reaparece.

ABELHAS
Se Santana abre uma torneira, Durão derrama uma lágrima.
Eu toco uma campainha em Portugal e assim mato Kim Jong-il.
Tony Hoagland pensa em Frank O’Hara, escreve, de uma assentada, três poemas, e o mundo ganha uma hora de sono.
Uma baleia engole um pescador indonésio 33 minutos depois de um primo distante (do homem, não da baleia) se imolar pelo fogo numa aldeia palestiniana.

MOSCAS
A actriz olhou só mais uma vez para a Broadway, mas não deixou de haver tempestade no falso deserto de sal dos Andes.
Um homem chamado Joseph Grand decidiu imitar o seu homónimo do livro de Camus e pensa na frase que reescreverá no resto da vida porque, num cinema abandonado de Bombaim, um rapaz e uma rapariga beijam-se e choram ao mesmo tempo.
O padre liga novamente a box da Tv Cabo, impedindo que algo de interessante aconteça até 2011.
Em 2011, o mundo acaba, mas outro na fila logo lhe toma a vez.»

De Marta Barreto:

«Uma árvore é arrancada na floresta da Amazónia e uma criança morre de asma em Xangai; ninguém chega a tempo de evitar que o leite transborde de um fervedor em Mafra e na Nova Zelândia milhares de vacas tentam o suicídio colectivo; enquanto na Rússia se treina o lançamento do dardo, nos Pirinéus pequenas avalanches vão-se sucedendo; um beijo é roubado no Equador e um menino de 2,200kg nasce em Jacarta.»

De Gaspar Matos:

«Augusta atira um livro à água e na Ásia um duende vê mais um Western; o recibo de vencimento espreitou do envelope, e uma ucraniana riu-se na Ajuda; o tsunami no Índico lavou o Grupo Coral da Brandoa; ela fechou o frigorífico mas não evitou a constipação dos galegos de Ourense; esse columbófilo chorou, e todos os coelhos de Stanford perderam o pêlo; eles beberam Frangelico, e um abade mesquinho faleceu em Trento; o vento recuou em Marrazes, e um pedopsiquiatra cortou um salpicão em fatias transparentes.»

De O Salgador da Pátria:

«Enquanto o Papa Bento XVI redige uma encíclica em Roma, dentro dos seus sapatos Prada, morrem milhares de crianças de fome em todo o mundo.
José Sócrates, primeiro-ministro português, puxou de um cigarro num avião enquanto sobrevoava o Atlântico e encheu os jornais portugueses de fumo no dia seguinte.
Os Irlandeses votaram “não” num referendo e provocaram um terramoto em Bruxelas e Estrasburgo.
A Mars Phoenix mostrou gelo no planeta Marte e milhares de pessoas continuam a ir à missa, à mesquita e à sinagoga no planeta Terra.»



Comentários

One Response to “Passatempo ‘Efeito Borboleta’ (parte 2) – uma antologia”

  1. pol on Junho 26th, 2008 23:20

    quando se abusa do absurdo, quando o absurdo não tem regras, tudo é fácil, tudo é desinteressante – e é o absurdo quem ri por último
    abraço

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges