Pen Clube

A primeira vítima foi o Arnaldo, que na primavera de 1981 costumava aparecer na tasca do Cardoso com um sorriso de satisfação mal contida. Uma noite, encostámo-lo à parede e ele lá se descoseu. Andava a escrever um romance gigantesco, mais de 800 páginas, uma coisa nunca vista, «melhor do que o Mau Tempo no Canal e o Sinais de Fogo juntos». E acrescentava: «O que Nemésio fez pelo Faial e Sena pela Figueira da Foz, vou eu fazer pela Cova da Piedade.» Infelizmente, nunca chegámos a ler o tão promissor Margem Sul. No dia em que ele se deslocou a Lisboa para entregar o manuscrito, impecavelmente dactilografado, aconteceu aquilo. À entrada do cacilheiro, pousou as folhas para apertar os atacadores e uma súbita rajada de vento destruiu-lhe a vida literária. Ainda hoje os olhos de Arnaldo se embaciam, quando se lembra das páginas a esvoaçar sobre o Tejo, como gaivotas aturdidas.
A segunda vítima foi a Madalena, já no tempo das disquetes. Depois de um verão fechada em casa, conseguiu finalmente terminar o volumoso ensaio sobre Pessoa e a «pré-pós-modernidade», arrojadíssima teoria que nunca chegou a explicar muito bem, mas com a qual tencionava agitar os meios académicos e provocar taquicardias nos pessoanos mais ortodoxos. Quando um professor da Faculdade de Letras mostrou interesse na obra, ela não se deu ao trabalho de imprimir as 458 páginas. Apanhou o metro para a Cidade Universitária e só depois de entregar o pequeno objecto azul, em mão, é que descobriu o significado do verbo desmagnetizar.
A terceira vítima foi o Rafael. No seu portátil, tinha instalado um software especialmente concebido para a escrita de poemas visuais. Ele dizia que a sua linguagem estava a meio caminho entre Ana Hatherly e Ernesto Melo e Castro, mas não pudemos confirmar, porque a muito aguardada Lira Digital desapareceu para sempre na terra dos documentos informáticos irrecuperáveis, quando o disco rígido deu o berro.
De então para cá houve mais umas quinze vítimas. Eu fui das últimas e poupo-vos à descrição da minha miséria. Posso ser infoexcluído, mas tenho vergonha na cara. O que interessa é que decidimos formar – o Arnaldo, a Madalena, o Rafael e os outros – uma espécie de confraria para exorcizar e precaver tragédias pessoais deste jaez. Todas as quintas-feiras, marcamos mesa num restaurante da moda (o Arnaldo às vezes tem saudades da tasca do Cardoso, mas com o tempo, já se sabe, aburguesamo-nos). Então, no fim do jantar, erguemos as nossas Pen Drives de oito gigas como se fossem espadas de mosqueteiros. Um de nós pergunta: «E de que é que não nos podemos esquecer?» Resposta em coro: «Do backup, do backup, do backup».
Tendo sido eleito porta-voz do grupo, queria aproveitar esta crónica para fazer um convite público ao conhecido escritor de bestsellers a quem roubaram recentemente um computador com dois livros dentro. Nós já estivemos na sua posição, Miguel. Sabemos o que custa. Por isso, se aceitar ser nosso membro honorário, recebê-lo-emos de braços abertos. E teremos uma Pen para lhe oferecer, com o seu nome gravado e tudo.

[Texto publicado no número 75 da revista Ler]



Comentários

4 Responses to “Pen Clube”

  1. fallorca on Dezembro 27th, 2008 21:54

    Ah, agora percebo o que é o Pen Clube. Ok, ok… 😉

  2. Maria das Mercês on Dezembro 29th, 2008 13:06

    Adorei este texto… e juro nunca mais mencionar a palavra PEN perto do meu pc quando o seu blogue estiver activo no écrã. Como fui capaz de o julgar desatento daquela maneira? 😉

  3. venancio on Dezembro 30th, 2008 21:56

    Uma das folhas dactilografadas de «Margem Sul» voou para o cacilheiro onde eu ia para uma consulta de dentista e que cruzava aquele outro. Li-a. Era uma passagem triste, uma amargura de amarrotar o papel. Menos cínica que o Nemésio, menos grotesca que o Sena. Era, digamos, autenticidade pura.

    Deitei a folha fora, claro.

  4. anderson on Janeiro 30th, 2009 20:57

    Pois eu perdi meu pen drive de 8gb esses dias e, se bem que tivesse backup, este estava meio defasado. O medo maior mesmo é do que vai fazer com o que encontrou quem o encontrar. Vai que eu sou um Fernando Pessoa? Daí que meu novo pen drive tem senha para acesso aos dados. Recomendo.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges