Pessoas imaginárias

Guia para 50 Personagens da Ficção Portuguesa
Autor: Bruno Vieira Amaral
Editora: Guerra e Paz
N.º de páginas: 229
ISBN: 978-989-702-067-4
Ano de publicação: 2013

Há 23 anos, Alberto Manguel e Gianni Guadalupi publicaram um luxuriante Dicionário de Lugares Imaginários, sobre as múltiplas geografias ficcionais inventadas ao longo dos séculos pelos mais extraordinários ou obscuros escritores. Neste Guia para 50 Personagens da Ficção Portuguesa, Bruno Vieira Amaral (n. 1978) assume ter-se inspirado no belíssimo cartapácio da dupla Manguel/Guadalupi. Também ele quis criar um «divertimento que parasita e prolonga o jogo da literatura». Em vez de lugares imaginários, porém, catalogou «pessoas imaginárias». Ou seja, personagens: essas figuras capazes de se instalar na imaginação e na memória dos leitores, chegando a parecer mais reais do que a própria realidade.
Num livro com estas características, o mais problemático é sempre o estabelecimento de um critério. Porquê estas 50 personagens e não outras? Simples: porque são estas as personagens que marcaram Bruno Vieira Amaral. Cada pessoa tem o seu cânone, a sua lista de imprescindíveis e dispensáveis, pelo que a escolha do autor Bruno Vieira Amaral apenas coincide com a do leitor Bruno Vieira Amaral. Aos outros, a todos nós, sempre causará desconforto uma ausência gritante ou a inclusão de uma personagem que nos parece menor. Mas se «questões de preferência pessoal» foram «soberanas na selecção», fica o assunto resolvido. Pode discordar-se da escolha; não da honestidade intelectual de quem a fez.
Dito isto, há uma desconcertante flexibilidade em todo o exercício, que talvez denuncie o facto de BVA não se levar demasiado a sério. As 50 personagens são afinal 51 (se contarmos Léah, a única retirada de um conto, de José Rodrigues Miguéis); ou melhor, 55, porque quatro das entradas correspondem a casais. E se é legítimo que alguns escritores estejam representados por mais do que uma personagem (Eça, com quatro; Júlio Dinis, Camilo Castelo Branco, José Cardoso Pires e Saramago, com duas), essas reincidências como que sublinham a exclusão mais notória: António Lobo Antunes. Não escolher Maria Velho da Costa, Ana Teresa Pereira ou A.M. Pires Cabral pode ser uma questão de gosto, ignorar escritores das gerações mais novas (Gonçalo M. Tavares, Valter Hugo Mãe, Afonso Cruz) talvez revele prudência, mas deixar de fora Lobo Antunes assemelha-se mais a uma provocação do que a um esquecimento, sobretudo quando o crivo é suficientemente largo para que passem Fernando Namora, João Aguiar e Miguel Sousa Tavares.
Ainda assim, este é um livro que se recomenda. Principais trunfos do autor: a argúcia na análise e o rasgo estilístico. Do romantismo a O Que Diz Molero, passando pelo neo-realismo, Bruno Vieira Amaral resgata personagens ao respectivo habitat literário e mostra-nos, em prosa vívida, concisa e por vezes exaltante, todas as suas grandezas e defeitos. Ou seja, toda a sua humanidade.

Avaliação: 7/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]



Comentários

One Response to “Pessoas imaginárias”

  1. paulo santos on Maio 16th, 2013 15:43

    Não me pareceu má crítica 7 em 10…

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges