Pigmalião na neve

O Lago
Autora: Ana Teresa Pereira
Editora: Relógio d’Água
N.º de páginas: 129
ISBN: 978-989-641-266-1
Ano de publicação: 2012

Nos últimos livros de Ana Teresa Pereira, o teatro vem ocupando um lugar cada vez mais importante na densa rede de referências simbólicas da autora. Mas é em O Lago que se esbate de vez a fronteira – porosa e vagamente assustadora – entre palco e vida. Se na novela anterior (A Pantera), uma escritora (Kate) transformava o actor com quem se envolvia (Tom) em personagem de ficção, desta vez há um dramaturgo e encenador (também chamado Tom, o mais recorrente dos nomes-fétiches de ATP) que pretende converter uma actriz na própria essência da fugidia protagonista da sua peça. «Há algum tempo que ela usava as palavras representar e escrever como se fossem exactamente a mesma coisa», diz-se a propósito de Kate em A Pantera. Essa quase equivalência torna-se agora absoluta, através de uma subtil reformulação da frase: «Não há qualquer diferença entre escrever e representar.»
Na primeira parte do livro, assistimos à aproximação entre Jane, uma actriz mediana, ex-bailarina que transporta a marca do seu falhanço (um dia caiu do palco e feriu o tornozelo; por isso coxeia ligeiramente quando se sente «perdida» ou «com medo»), e Tom, o dramaturgo/demiurgo à procura de transcendência: «Queria um mundo que fosse completo e perfeito em si mesmo. Como um buraco no universo.» Obsessivo, ele imaginou uma mulher na cabeça, no papel, e necessita de um corpo que se lhe adapte, «material para ser modelado». Os sinais estão todos à vista. A Tom, «sempre o seduzira a história de Pigmalião». Ou seja, só concebe amar um ser por si criado. E se escolhe Jane, apesar da sua inexperiência, é porque ela tem «alguma coisa de Audrey Hepburn» (a protagonista de My Fair Lady).
A peça de Tom decorre num só cenário (alpendre, paisagem de neve, lago ao fundo), com um homem e uma mulher a conversarem «em terreno familiar», e depois «mais fundo, onde fazia escuro, era perigoso, e não havia caminho de volta». Para que o enigmático texto liberte a sua corrente subterrânea de horror («mas talvez houvesse felicidade no horror»), é preciso que Jane seja «completamente» a personagem e passe «para o outro lado». Uma metamorfose que acontece no lugar onde a peça foi escrita: a única casa de um «vale maldito», isolada do mundo pelos rigores do Inverno. É ali que Tom esculpe tudo: um passado, memórias, gestos; um dia que se repete, sempre igual. Esta aproximação a «algo de abstracto» (talvez divino) exige uma «espécie de loucura», o fechamento num território assombrado. E na literatura portuguesa ninguém conhece melhor tais rarefeitas paragens do que Ana Teresa Pereira.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no n.º 110 da revista Ler]



Comentários

3 Responses to “Pigmalião na neve”

  1. José Passarinho on Abril 13th, 2012 12:31

    Fico feliz quando como espargos, de igual modo fico quando leio Yun Dong Fu, escreve como ninguém sobre teatro, todos os seus contos são sobre teatro. Em “Lost Fiji” encontrei uma história muito parecida à que refere no post, de confluência entre um encenador e a sua actriz fetiche. Conta Bo o encenador, que nas noites de luar, gostava de ver a luz do lago reflectida na perna gorda de Fiona, gostava de a ver deitada na relva, nua, a brincar com os patos, e a segui-lo com o olhar, enquanto ele estudava as posições em palco dos vários personagens. O jardim era grande e a relva ia até ao lago, imenso, que dava para o horizonte infinito. É verdade que no fim Bo mata Fiona depois da estreia, por entender que poderá estragar a sua reputação, mas, até esse ponto, a história promete.

  2. Irene Alves on Abril 13th, 2012 19:24

    Gostei de ler sobre este livro.
    Virei aqui mais vezes.
    Saudações
    Irene

  3. NB on Abril 13th, 2012 19:34

    Olá
    Já tirei uns dias de férias para poder ir à Feira do Livro de Lisboa, no entanto gostava de sugerir que escrevesse um Post sobre como fazer grandes compras a preços pequenitos.
    Sei que costuma existir uma noite em que os Livros são mais baratos? e o mesmo Livro está à venda numa só “barraquinha”?
    sugestões de como fazer boas compras mesmo?
    Obrigada
    NB

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges