Poema nono do ciclo ‘Negrume’, de Amadeu Baptista
uma casa na terra. foi isso que criei,
sabendo como pode ser difícil encontrar,
muitas léguas em redor,
uma luz com esse benefício.
andar, andei. fazia como via,
os outros a fazer. invocava
as coisas da manhã e escrevia,
com elas, a nossa redenção.
o universo seria o que quiséssemos.
a nervura do mirto, a essência nítida.
a curva do arroio, a intensidade
com que o sol tocasse a pele.
mesmo de noite, a busca prosseguia.
ao subir ao abismo do teu corpo,
ao descer à densa irrupção do teu olhar,
procurava apartar a escuridão, e dissipá-la.
podia ser possível renascer.
podia ser possível antecipar
o fundo aterrador que há na mágoa
com que o meu no teu rosto se procura.
bastava, só, falar. dizer que ódio,
ou que cegueira, pesava sobre nós.
que impaciência gelava o nosso sono,
que pesadelo aniquilava o sonho.
bastava, só, dizer o que podia,
ou não, ser feito, usando a linguagem
das aves desabridas, as ondas
que há no mar, o vento sobre os campos.
agora, sobre a terra, há só desilusão.
cavalos sem forragem, colheitas por fazer.
e golpes desferidos nos sicômoros,
que, como chagas, sangram.
nada nos perdoará a atrocidade.
nada nos redimirá por termos ido
ao arrepio da afronta, da tristeza.
sempre que te chamo não respondes.
[in Negrume, & Etc, composto e paginado por Olímpio Ferreira, 2006]
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Esta notícia brutal da morte do Olímpio Ferreira apanhou-me completamente de surpresa. Agradeço, comovido, ao José Mário Silva a publicação do poema nono de ‘Negrume’ para evocar o seu nome.
Amadeu Baptista