Poemas da Foz do Cobrão

No dia das grandes manifestações que varreram o país, com centenas de milhares de pessoas a saírem à rua contra o estado das coisas e o sufoco da austeridade, a Margarida Vale de Gato, o Jaime Rocha e eu deambulámos pela aldeia de Foz do Cobrão, no concelho de Vila Velha de Ródão, a convite da Biblioteca Municipal e da sua principal dinamizadora, Graça Batista. À tarde, numa casa que em tempos foi uma escola primária, partimos do poema de Ruy Belo que o Jaime Rocha encontrou por acaso naquela manhã (num marcador, dentro de um livro de Paul Celan) e cada um escreveu uma aproximação a O Portugal Futuro.
Eis a da Margarida Vale de Gato:

O senhor por exemplo o que é que o leva a participar numa manifestação numa tarde
tão quente?

Era ontem um peixe sufocado o meu país,
hoje súbito tanta gente buscando brilho de água
que se move

Não sei onde fica, não é um lugar no mapa
É um espaço na boca com sede da gente

numa tarde a mover-se com muito calor, o meu país
Um peixe, um sítio pouco evidente,

ou corpo
exangue, coalho, desabituado de saber

como se juntam os membros, respira-se aqui
com dificuldade, desenvolve-se vocação de submerso

Precisamos de ar
que é uma pergunta a que não se teria de responder logo
porque de princípio devia haver em toda a parte
como O que faremos nós?

O que havemos de fazer
com este peixe? Peixe era cristo e repartiu-se
para se tornar maior – disseram-me que isso era amor
mas eu não sei se creio
De manhã lembrei-me de um país para todos
onde no interior voltassem a crescer crianças
a arregaçar as fraldas das velhotas, esta tarde na TV parece
que meu país é mais que peixe, mas não vou chamar-lhe frota nem mar
pois basta hoje a poesia dos fenómenos pouco óbvios
de quando se juntam pessoas e há sempre alguma coisa,
acontece

Eu fiz este:

Da forma breve desenhada
– peixe, pássaro, pequeno país –
não guardar mais do que o sobressalto,
o desmanchar do tempo
que nos desmancha,
a fúria infantil do giz nos dedos.
O negro asfalto impenetrável
devora até a luz do verão
imaginado um dia, à sombra
da ideia mais vaga de futuro.
Como desinclinar
as vozes
curvadas pela incerteza
é o que não sabemos.
Mas os dias
abrem-se
ao espanto,
como sempre se abriram,
têm degraus infinitos,
corrimões, ângulos agudos.
A grande corola das possibilidades
só se encolhe quando ficamos quietos.

Do poema do Jaime Rocha não tenho registo porque ele escreveu-o à mão, num caderno.
Depois desta primeira fase, decidimos fazer um poema que nos aproximasse das imagens e ideias dos poemas escritos pelos outros dois participantes.
Eis o resultado:

Poema a partir de Jaime Rocha e de José Mário Silva a partir de Ruy Belo

Sobressalto.
Desmanchar do país, do tempo
à sombra da ideia mais vaga
onde faz ainda escuro.
Desinclinadas as vozes
um peixe agoniza

Agoniza no duro asfalto um país pequeno,
está virado para as casas e esquece
que tem sombra para o mar e faz calor na rua

E pessoas a quem acontece
querer terminar a sede do espaço na boca
aberta neste dia as vozes
desinclinadas
Onde no interior faz a criança a descoberta
do peixe e de um cântico ainda inseguro
a descompasso de degraus
e de um inteiro futuro.

Margarida Vale de Gato

Poema a partir de Margarida Vale de Gato e Jaime Rocha, a partir de Ruy Belo

Inventamos espaço na boca
para fenómenos pouco óbvios,
como as palavras que nos levam
para dentro da multidão, entre
outras formas subtis de desenvolver
a vocação de submerso.
À sombra dos crimes inesperados,
reivindiquemos a dança
no cimo das árvores, a beleza
áspera de um sítio pouco evidente.
No brilho de água que se move
o país é um peixe de guelras abertas,
a respirar com dificuldade,
brilhando à luz do asfalto
que arde na noite,
um peixe que lá
nas alturas decifra,
desenhado a giz, o contorno
da sua vocação de pássaro.

José Mário Silva

Mais uma vez, não posso partilhar aqui o poema escrito por Jaime Rocha, porque ficou no seu caderno manuscrito. E foi nesse caderno manuscrito que começou a nascer o poema colectivo com que quisemos manifestar-nos à distância:

Poema ingénuo comprometido
15 de Setembro 2012

O que é um país à procura de futuro?
Coitado de um país que procura um futuro
e só encontra muros e cinza.

Um país sem luz, sem geografia,
com uma mágoa metida no tronco.
Um país doente que rói os ossos
e bebe água por um tubo pequeno.
Um país invadido por um deserto,
sem palavras, um país final.

O que é um país à procura de futuro?
Um país que se levanta inteiro
numa tarde quente.

Alguém disse: «Se tivessem ficado em Lisboa, seriam apenas mais três numa manifestação gigantesca. Pelo contrário, a vossa presença em Foz do Cobrão vai ter um impacto muito mais importante e duradouro.» Olhando para a sessão pública de leitura e apresentação do projecto, que reuniu mais de 40 espectadores (numa aldeia com 49 habitantes), é capaz de haver alguma verdade nesta afirmação. O tempo o dirá. Indiscutível foi a gentileza e extraordinária hospitalidade de todas as pessoas de Vila Velha e de Foz do Cobrão. Sentimo-nos, os três, em casa. E tão depressa não esqueceremos os dias magníficos que ali passámos.



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges