Poemas inéditos de Mário Castrim

No dia em que passam dez anos sobre a morte de Mário Castrim, Alice Vieira partilhou, no seu mural do Facebook, três poemas inéditos do jornalista e crítico televisivo do Diário de Lisboa. Transcrevo aqui os dois primeiros:

No retrato velho hoje cinzento
estava toda a família reunida.
– Este aqui és tu.
Este tu era eu – três anos, caracóis, calções
colete, botas.

Este sou eu.
É preciso guardar as provas. Os documentos.
Se um dia me fecharem as cancelas e
não me deixarem passar, aponto logo:
– Este sou eu.

– Passe – dirá o guarda que deve haver
na eternidade – e boa viagem, sim?

– Claro – dirá o menino
que entretanto busca em mim
as sete diferenças
como costuma fazer no desenho
do suplemento do jornal

***

Deste ponto do hotel vê-se qualquer coisa
que logo desde o início se entendeu
não poder ser outra coisa além do Cabo da Roca.
Daqui donde estou se vê que o Cabo é
perfeitamenhte ocidental o mais
ocidental possível.

Mais do que ele, só os nossos olhos.

Eles, para quem a terra não acaba nunca.
Eles, que tocam o ponto exacto onde
um sol de fogo prova que ela é redonda.

A única diferença é o farol. Mas se fores tu
de noite a olhar o mar, os barcos
podem ir à confiança.

Obrigado, Alice.



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges