Poesia infantil

No final dos anos 80, o Instituto Jean Piaget publicou vários volumes de um Cancioneiro Infanto-Juvenil para a Língua Portuguesa, onde se reuniam “poemas” de crianças e adolescentes. Alguns dos participantes tinham três, quatro ou cinco anos e os seus “versos” tinham sido coligidos por educadoras, espantadas com formulações verbais surpreendentes. Chamar-lhe poesia sempre me pareceu exagerado, pela simples razão de que a maioria dos supostos rasgos traduziam apenas os deslizes, erros e lacunas de quem está a aprender uma linguagem e ainda não a domina. Exemplo: um dos poemas premiados, que deu título ao respectivo volume, consistia no verso “Eu moro na minha mãe”. Memória uterina? Metáfora de um extremo amor filial? Não me parece. O miúdo só quis dizer que morava na casa da mãe. A poesia, involuntária, estava nos olhos dos adultos embevecidos.
Dito isto, havia alguns achados (como aquele “o magusto é o carnaval das castanhas”) e muitas ideias fortes, nascidas dos ângulos inesperados que as crianças utilizam para se aproximarem das coisas e das palavras. Mesmo sem serem poetas, os miúdos de três anos conseguem muitas vezes ser poéticos (a anos-luz, diga-se, de Paulo Teixeira Pinto e de muita gente com obra publicada). Lembrei-me disto há uma semana, quando estava no CCB com a Alice. Não sei se inspirada pelos poemas que pairavam no ar (e nas paredes), disse duas frases que me deixaram de cara à banda.
A primeira surgiu enquanto fazia um desenho: círculos, linhas sobrepostas, uma espécie de espiral. “O que é isso?”, perguntei. “É um retrato”, disse ela. “Retrato de quem?” A Alice continuou a desenhar, cara virada para o papel: “De uma pessoa com uma fome inteira.”
A segunda foi já à saída, quando voltávamos para o carro. O vento soprava gélido, cortante. Fiz uma referência qualquer ao facto de a Primavera já ter chegado, embora não parecesse. A minha filha apertou-me a mão e exclamou: “Olha pai, eu tenho uma amiga que está no Verão.”



Comentários

5 Responses to “Poesia infantil”

  1. Rui Almeida on Março 29th, 2008 15:03

    José Mário,
    Este teu post fez-me revisitar o livros desse género q tenho aqui por casa. (Os do Instituto Piaget só conheço de referências indirectas, como a de q fiz eco, há 2 anos, no meu blog: http://ruialme.blogspot.com/search/label/crian%C3%A7as )

    “A criança e a vida”, tanto quanto percebo, é um clássico do género, organizado por Maria Rosa Colaço, creio q ainda nos anos 60 e do qual já vi uma reeedição recente.

    Outro clássico, também reeditado recentemente, é “O poeta faz-se aos 10 anos” de Maria Alberta Menéres, de 1973. (nele consta uma menina de 11 anos, chamada Maria José da Silva Viana Fidalgo de Oliveira, q já então desabafava coisas assim: “Oh primavera! Queria agarrar-te / para caminharmos as duas no infinito. / Para sempre”).

    Também de 1973 é “As crianças falam”, editado pelas edições Afrodite de Fernando Ribeiro de Mello e organizado por Adriana Areal Calvet e Elsa Anahory (o Henrique Fialho publicou alguns excertos aqui: http://weblogdocao.blogspot.com/2007/11/as-crianas-falam-excertos.html ).

    Tenho ainda um livrinho, datado de Janeiro de 1974, chamado “e o sol é só um”, com chancela da BASE e organizado por Maria Elisa Salreta. (só para veres como isto anda tudo ligado, o texto de introdução a este livro é da autoria do irmão de um banqueiro de quem PTP foi o n.º 2…)

    Concordo contigo quando dizes q na maior parte das vezes “a poesia, involuntária, está nos olhos dos adultos embevecidos”, sobretudo nas idades q referes, mas não deixa de haver nisso tudo muita poesia, a lembrar os processos surrealistas ou a delicadeza de Ramon de la Serna ou de Jorge de Sousa Braga.

    (Já agora q referi a editora Afrodite, toma nota deste blog: http://editora-afrodite.blogspot.com/ – autêntico serviço público)

  2. C on Março 29th, 2008 21:26

    Até aos 5 ou 6 anos as crianças deverão já dominar conceitos, orais claros, de frases com uma estrutura, sentido e número de elementos que a compoem ordenados de forma correcta. A riqueza vocabular que cada uma maneja prende-se já com predisposições genéticas e com a ambiência familiar nesse aspecto. Por volta, e a partir dos 7 anos sensivelmente, certas crianças podem já criar , intencionalmente, uma ou outra frase com sonoridade e ‘sentido’ poético. Ou mesmo poemas. Principalmente as que ouviram ler poesia desde pequenas e as mais vocacionadas para as coisas da linguagem. Presente no CCB dia 22, fixei-me numa cadeira em determinada sala e daí já não saí mais. Também teria sido interessante espreitar os pequenos.

  3. cristina l. on Março 31st, 2008 15:05

    Deve ser uma miúda mesmo porreira, essa tua Alice.

  4. José Mário Silva on Março 31st, 2008 16:20

    É, sim senhor.
    :)

  5. HMBF on Abril 2nd, 2008 10:17

    Manuel António Pina: «a palavra, na infância, se é uma aprendizagem da razão, é também uma experiência mágica de convocação imediata do mundo. Daí que a linguagem infantil tão facilmente seja poética. Ou exprima a inadequação e a confusão dos sentidos (e dos sentimentos) em confronto com a organização da razão adulta» (http://antologiadoesquecimento-leituras.blogspot.com/2007/05/dez.html).

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges