Porto Editora desiste de publicar ‘A Jóia de Medina’, um dos livros mais polémicos do ano

A Porto Editora abdicou hoje oficialmente dos direitos sobre A Jóia de Medina, o polémico romance histórico de Sherry Jones sobre uma das mulheres de Maomé, recusado pela Random House no início de Agosto (ver aqui, aqui e aqui).
Em primeiríssima mão, o Bibliotecário de Babel teve acesso ao comunicado que justifica a renúncia e que de seguida transcrevemos na íntegra:

«Porto, 15 de Setembro de 2008 – A Porto Editora recusou editar em Portugal a polémica obra de Sherry Jones A Jóia de Medina. A decisão foi tomada com base no parecer extremamente desfavorável redigido por um dos consultores editoriais da Porto Editora, a quem foi pedido a análise do original por Manuel Alberto Valente.
Um romance “vulgar, pobremente escrito e pouco convincente nas suas personagens e enredo” são algumas das mais relevantes considerações registadas naquele parecer que levaram o director da Divisão Editorial Literária de Lisboa (DEL-L), da Porto Editora, a renunciar a publicação de A Jóia de Medina.
Para Manuel Alberto Valente, esta é uma “decisão de particular relevância, pois tínhamos a possibilidade de lançar um livro com um enorme potencial comercial. Acabou por pesar o critério fundamental, o da qualidade literária”. O responsável pela DEL-L afirma que a polémica provocada com a desistência da Random House em publicar o livro nos Estados Unidos não teve qualquer influência na decisão: “a Administração da Porto Editora assegurou-me, desde o início do processo, o apoio imprescindível para uma decisão livre, sem quaisquer receios e de acordo com os critérios definidos. Se a decisão fosse a de editar o livro, não haveria quaisquer hesitações”. Há duas semanas, Ana Barros, editora da DEL-L, tinha assegurado ao Ípsilon [suplemento do jornal Público] que “se decidirmos que o livro vale a pena publicar porque é interessante não vamos pensar nas consequências políticas”.
Para conhecimento, um excerto do parecer de leitura:

I would not publish this.
I look at it from two points of view:
First, as a novel, it is trite, poorly written and unconvincing in its characters and its plot. It reads like a poorly researched item in the popular press, or a story in a low-quality women’s magazine. Second, as a piece of religious provocation, it has the potential to cause outrage – not because it is particularly offensive concerning Mohammed or Islam, but because it appears to be so inaccurate historically, that it seems to deliberately trivialise the Prophet and the religion. Unlike Satanic Verses, which has a base in serious literary philosophy, this reduces Mohammed’s life and work, through this banal story about one of his wives, to the level of schoolgirl fiction. I have to imagine that Ms Jones has done this consciously. At best, it is in poor taste; at worst,
offensive.
»

O livro já foi publicado na Sérvia e tem os direitos vendidos para Itália, Espanha, Hungria, Alemanha e Brasil. Em língua inglesa, vai aparecer com chancela da Beaufort Books (EUA) e da Gibson Square (Reino Unido).



Comentários

6 Responses to “Porto Editora desiste de publicar ‘A Jóia de Medina’, um dos livros mais polémicos do ano”

  1. ricardo pulido valente on Setembro 15th, 2008 15:56

    apesar de os argumentos nao me convencerem (cá para mim tiveram medo dos homens-bomba) isto dava uma boa discussão…

    qualidade literária vs impacto comercial.

    quase sempre ganha o segundo;)

  2. Lurdes B. on Setembro 15th, 2008 17:08

    Já circulam pelo “espaço” várias críticas negativas à qualidade literária e à incapacidade de “historização” do tema na obra em questão.
    Sem ofensa para os jornalistas, mas normalmente não conseguem produzir bons romances históricos. Mais do que os não-historiadores, os jornalistas (na generalidade com que somos/temos sido brindados) têm uma tendência para o imediato desinformado e para o uso (abuso) do tema-escândalo.

    Pelo que tenho lido – e apenas nessa categoria – ainda bem que não o editam.

  3. Arrastão: Um bom negócio on Setembro 15th, 2008 17:22

    […] da polémica era grande. A razão da não publicação é mais simples: o livro é mau. Um romance “vulgar, pobremente escrito e pouco convincente nas suas personagens e enredo”, o que vai ao encontro do que tem escrito por quem leu o prólego da […]

  4. Bibliotecário de Babel – Fogo posto on Setembro 30th, 2008 12:16

    […] A casa de Martin Rynjia, dono da editora independente Gibson Square, que vai lançar a 30 de Outubro o polémico romance The Jewel of Medina, de Sherry Jones, foi alvo de uma tentativa de fogo posto no último sábado. Além de não publicar uma narrativa literariamente fraca (segundo a opinião dos seus consultores), também foi disto que o Manuel Alberto Valente se livrou. […]

  5. ‘The Jewel of Medina’ publicado em Espanha | Bibliotecário de Babel on Fevereiro 10th, 2009 13:45

    […] polémico romance de Sherry Jones, que a Random House retirou do seu plano editorial e a Porto Editora se recusou a publicar, está a chegar às livrarias espanholas, com chancela da Ediciones […]

  6. Platão Arantes Teixeira on Setembro 10th, 2009 22:05

    PREZADO EDITOR

    Necessito publicar livro: Papillon o Homem Que Enganou o Mundo!

    Papillon foi publicado em 1969 rapidamente chegou a ser o terceiro mais vendido no planeta, perdia apenas para a “Bíblia sagrada e o Alcorão a bíblia dos mulçumanos”, quarenta anos depois estamos provando uma das maiores farsas da literatura mundial, farsa comprovada em diversas pericias:

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    http://plataopapillon.com.br/papillon/index.php?option=com_content&task=view&id=1&Itemid=1

    Essa história tem tudo para torna-se mais um Best-seller mundo afora!
    Te interessa?

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges