Pré-pré-publicação

KRIPP

«Um dia, há muito tempo, quando ainda havia pinheiros, quer dizer, quando ainda havia árvores, o meu pai levou-me para o meio de um bosque. Um bosque era um sítio cheio de árvores, quando ainda havia árvores. Apontando a vegetação à nossa volta, o meu pai disse-me: escolhe um pinheiro. Eu era muito pequeno, não mais do que cinco ou seis anos, mal tinha força para pegar num machado, mas olhei o meu pai recortado contra o céu e compreendi que não tinha alternativa. Era preciso escolher uma árvore e eu escolhi-a. Um pinheiro pequeno, meio escondido atrás de uma rocha, um pinheirinho com ramos raquíticos. Está bem, disse o meu pai. Agora vais ter que abatê-lo, deitá-lo abaixo com a energia dos teus braços, com o suor do teu rosto, com a tua persistência. A voz do meu pai era um trovão negro ribombando até aos confins do bosque. Eu nunca fizera sequer as maldades típicas dos miúdos: queimar as asas dos gafanhotos, estropiar moscas, atirar pedras aos cães (quando ainda havia gafanhotos, moscas, cães). Eu era uma criança assustada que vivia debaixo da sombra protectora da mãe e o meu pai queria acabar com isso. O meu pai queria que eu crescesse de repente, que me tornasse um homem à força. E, para isso, tinha que mostrar a minha vontade; ou melhor, a minha fúria. Era preciso derrubar uma árvore, custasse o que custasse. Então, no meio do bosque, só com o meu pai, ergui o machado. Ele explicara-me os gestos necessários, golpeando o lenho de uma árvore enorme, para eu ouvir o som cavo do metal, para eu ver as fendas abertas na madeira e as gotas de seiva como sangue a sair de uma ferida. Eu ergui o machado, o peso da lâmina a subir no extremo dos meus braços, a lâmina mais forte do que eu e depois um grito, o meu pai a cair como um pinheiro sem raízes, eu ali perdido no meio do bosque, as mãos vermelhas e o meu pai de olhos abertos, a olhar para mim do lado de lá da morte.»
Sempre que as coisas nos corriam mal, Kripp contava esta história. Ultimamente, as coisas corriam-nos mal muitas vezes. Na camarata, às escuras, enquanto os outros dormiam, vencidos pelo cansaço, Kripp descia do beliche e contava-me a história de como matara o seu pai, há muito tempo. Eu ouvia sempre até ao fim, sem dizer nada, mas uma noite fartei-me. Quando ele começou a entoar a ladainha, pedi-lhe que saíssemos dali, para não incomodar os companheiros. Do alto da torre 726, podíamos ver o sector 57 com uma nitidez incrível, sob a lua baixa. Dentro da paliçada, alinhadíssimos, os nossos veículos. Gruas em repouso, como braços flácidos. Lá fora, a desordem que nos esperava na manhã seguinte; outra colheita de cadáveres, ordenada pelas cúpulas. Na base da torre, um fosso. Kripp chorava ao falar do pinheiro pequeno que o pai queria que ele derrubasse. Kripp parecia-me ainda mais patético, debaixo do luar mortiço. Quando a lâmina se ergueu na sua história, empurrei-o. Depois, vi-o cair no fosso. Ouvi o estertor. E regressei à camarata. Acho que ninguém chegou a dar pela sua falta.

[in Efeito Borboleta e outras histórias, Oficina do Livro, Junho de 2008]



Comentários

4 Responses to “Pré-pré-publicação”

  1. quemavisa on Maio 21st, 2008 13:02

    JM, atenção a estes posts sobre a Leya (http://bibliotecariodebabel.com/tag/leya/). Olhe que o downsizing no grupo pode atingir autores mais rebeldes… E boa sorte a aturar os Isaías da vida 😉

  2. Jorge Melicias on Maio 21st, 2008 13:40

    Promete…
    Que a sua estreia na ficção seja, pelo menos, tão auspiciosa como foi o seu debutar na poesia.

  3. Maria Antonieta Preto on Maio 21st, 2008 16:36

    José Mário,

    É muito belo, muito bom este texto que integra o teu novo livro.
    Maria Antonieta Preto

  4. O homem que era quinta-feira on Maio 22nd, 2008 21:24

    “Gruas em repouso, como braços flácidos. Lá fora, a desordem que nos esperava na manhã seguinte; outra colheita de cadáveres, ordenada pelas cúpulas. Na base da torre, um fosso. Kripp chorava ao falar do pinheiro pequeno que o pai queria que ele derrubasse. Kripp parecia-me ainda mais patético, debaixo do luar mortiço. Quando a lâmina se ergueu na sua história, empurrei-o. Depois, vi-o cair no fosso. Ouvi o estertor. E regressei à camarata. Acho que ninguém chegou a dar pela sua falta.”

    Muito bom

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges