Pré-publicação: ‘A Blusa Romena’

O primeiro romance de António Mega Ferreira, A Blusa Romena (Sextante), começará a chegar às livrarias nos primeiros dias de Outubro. Em antecipação, revelo de seguida as primeiras quatro páginas do livro:

«Por curiosidade, por simples e fatídica curiosidade, aceitei encontrar-me com Duarte Lobo (um nome suposto, evidentemente), na terceira sala da Bertrand do Chiado, a dos livros de Arte e de História, às três e meia da tarde de uma quarta-feira, um dia muito quente de Junho de 2001. O contacto fora igual a tantos outros que me chegavam diariamente, através do correio electrónico. Eram convites para conferências, anúncios de vernissages e de lançamentos, newsletters e pedidos de patrocínio em teses de mestrado. Às conferências respondia que não, às teses de mestrado não dava saída; como não frequentava inaugurações nem promoções editoriais, a remessa diária terminava invariavelmente no ícone do lixo. Ficavam para resposta posterior as mensagens de amigos ou os questionários de jornais e revistas: mas as primeiras eram escassas, talvez porque deixara escassear os amigos, e, quanto aos segundos, basta dizer que chegaram a pedir que eu me pronunciasse sobre as grandes linhas da política energética («à escala global») até meados do século XXI. Não sei a que título fui consultado, mas admito que me tenham confundido com algum especialista na matéria, se é que existe. Em qualquer caso, era para mim um horizonte temático e temporal suficientemente distante para eu me preocupar com ele.
Quase sempre me esquecia de responder. Com isso, ganhei a fama de ser avesso à utilização do computador e de nunca abrir a minha caixa de correio. Os poderes ocultos que controlam a nossa itinerância no espaço virtual sabem que não é verdade. Todos os dias, sem falha, eu ia ver o que me chegara pela rede, para constatar, melancolicamente, que nada – ou quase nada – merecia a vaga ansiedade com que, de manhã e à noite, colocava o cursor sobre a palavra Inbox e clicava duas vezes no rato, na expectativa de que se me revelasse a surpresa de um contacto inesperado e aliciante. Inesperados, eram quase todos; aliciantes, praticamente nenhum.
O que me despertou a atenção na mensagem que me chegara de dlobo@mail.com foi o título: Blusa Romena. Era um eco longínquo, mas tocara-me na memória como qualquer coisa que nos desperta um sinal sonoro longamente adormecido, o primeiro, quase ofegante, repicar de um sino há muito imobilizado. Era um nome que vivia comigo há tanto tempo, que, provavelmente, eu já conseguira esquecê-lo. Mas a sua invocação como título de uma mensagem electrónica, naquela manhã de um dia muito quente de Junho, teve o efeito de o despertar em mim, rapidamente tornando presente tudo o que eu sabia sobre ele. E não era muito.
Há bastante tempo, talvez uns quinze anos, eu começara a escrever uma história que andava à volta do quadro de Matisse A blusa romena, que o pintor datara de 1940. A reprodução do quadro vinha na capa de um livro de Roland Penrose que, durante muitos anos, ocupara o extremo da prateleira da estante da sala, junto à porta da entrada. Todos os dias, era A blusa romena, a mancha branca da camisa bordada que envolvia o busto de uma mulher sem idade, a primeira impressão visual que me chegava com a manhã.
Devo ter-me habituado à Blusa romena de Matisse como nos habituamos às coisas que, com a rotina dos olhares, se transformam em dados indiscutíveis do nosso quotidiano: o carro do vizinho do 4.º esquerdo coberto por um oleado verde-seco, o duplo toque do carteiro, pendularmente, ao meio-dia e um quarto, a dona do quiosque de jornais apoiada sobre os cotovelos no balcão, como se estivesse numa janela de sacada. Tinha-a ali, todos os dias, diante dos meus olhos, e, pouco a pouco, um novelo qualquer foi-se formando na minha memória, uma espécie de reminiscência pressentida de uma verdade que eu já soubera, mas que fora recuando para o esquecimento, movida pela intensidade cromática do quadro de Matisse. Nunca passei da terceira página da história e nunca soube verdadeiramente porque começara a escrevê-la, muito menos até onde me poderia levar. Numa das arrumações da estante, a capa do livro desapareceu da minha vista, espalmada entre um estudo de Gombrich (O legado de Apeles) e os ensaios de Abraham Moles sobre o kitsch. Nunca mais pensei na Blusa romena.
A mensagem de Duarte Lobo dizia o seguinte:

“exmo. senhor,
contacto-o por causa de um assunto de natureza literária. acontece que li com muito interesse o seu livro sobre caravaggio e, por coincidência, vi, pouco tempo depois de o ter lido, uma entrevista sua na qual referia, de passagem, uma história que nunca conseguiu escrever e a que deu o título de A blusa romena. sei perfeitamente como nos pesam, pela vida fora, os projectos que nunca fomos capazes de concretizar (aliás, se não fosse assim, por que razão o teria referido na sua entrevista?). acho que, pelo menos no que se refere à blusa romena, estou em condições de ajudá-lo. há coisas que se passaram na minha vida, além de elementos que entraram na minha posse, tudo relacionado com esse quadro de matisse. creio que v. exa., como excelente investigador que é, pode encontrar interesse neles. o resto cabe ao seu talento de escritor; acho que tenho a história que dará corpo, finalmente, à sua blusa romena. se a curiosidade do escritor não se atemorizar com a singularidade do contacto, proponho-lhe que nos encontremos na quarta-feira, dia 20 p.f., na livraria bertrand, ao chiado, na sala dos livros de arte. eu terei nas mãos um exemplar do seu livro os últimos dias de caravaggio, mas é natural que o veja primeiro e tomarei a liberdade de me dirigir a si.
com os melhores cumprimentos,
duarte lobo”»



Comentários

3 Responses to “Pré-publicação: ‘A Blusa Romena’”

  1. obscuroobjecto on Setembro 25th, 2008 10:05

    Literartura light ‘high level’, está-se a ver.

  2. António on Setembro 25th, 2008 16:44

    Cerca de 5000 caracteres que entediam pelo desfilar de diversas referências: Matisse, Penrose, Gombrich, Caravaggio, A.A. Moles… Já sabemos que Mega Ferreira é um homem culto, so what? Achará o autor que os outros são todos ignorantes?

  3. Bibliotecário de Babel – Mega Ferreira na Roménia on Outubro 1st, 2008 7:26

    […] (ou pelo menos a primeira das suas narrativas a assumir-se como tal). O livro, de que publiquei as primeiras páginas faz hoje uma semana, vai chegar às livrarias por estes dias e tanto o autor como o editor contaram […]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges