Pré-publicação: ‘As Três Vidas’, de João Tordo

No seu blogue, o autor já publicou as primeiras páginas. O que se segue aparece muito mais para a frente no romance, na terceira parte, “página 260 ou por aí…”:

«A Quinta do Tempo deixara de existir. Chegámos em menos de dez minutos, percorrendo os caminhos de terra, onde algumas casas recém-construídas, à beira da estrada, levavam com a poeira dos carros. Em redor da quinta, o isolamento era idêntico ao que eu conhecera, embora os campos parecessem agora desolados, como se ninguém mais os cultivasse. Quando percorremos o carreiro em direcção ao casarão, porém, a devastação causada pelo fogo começou a mostrar-se. Tanto o casarão como a casa das heras eram esqueletos instáveis, carbonizados na parte superior pelas cinzas, o interior das divisões visível do exterior. Apenas metade do tecto da casa das heras sobrara – curiosamente, a parte que cobria o antigo consultório de Millhouse Pascal, porque o resto fora levado pelo fogo, pelo vento e pelas chuvas. As portas permaneciam iguais, os candeeiros ainda intactos, de lâmpadas estilhaçadas, mas as heras pareciam ter ganho uma vida retorcida e haviam atravessado a fronteira entre as duas habitações, começando a trepar pelo que restava da parede do casarão, como um vírus fora de controlo. A folhagem já não era verde e brilhante, como outrora, mas castanha e ressequida, aflita da falta de água do Verão no Alentejo.
O pior cenário era o do jardim, por onde passeei um pouco, enquanto Artur se encostara à porta das traseiras da nossa antiga habitação. A relva havia crescido até à altura dos joelhos, o terreno seco como a pele gretada de um velho, por toda a parte as ervas daninhas atacando o solo. A grande árvore continuava ali, menos frondosa do que há uns anos, mas ainda assim a heróica sobrevivente naquele vale da morte. Os ramos tinham descido um pouco, a copa estava menos expandida e, no geral, parecia que também ela envelhecera – mas era um ser de uma força bestial, certamente o único que sobraria depois de tudo o resto desaparecer. Caminhando pelo meio da relva selvagem, recordei as tardes que ali passara com Camila, Gustavo e Nina, tentando relembrar a posição exacta da corda bamba, o lugar especial onde a neta de Millhouse Pascal, equilibrada sobre um fio, sonhava com as possibilidades imensas do futuro. Parecia ter sido noutra vida. Agora, o próprio futuro se tornara passado, e as sombras tinham descido sobre a Quinta do Tempo, transformando-a numa terra de ninguém. O meu patrão morrera, Camila desaparecera como uma nuvem num dia ventoso, e uma solidão imensa, opressiva, ruminante, cercara a duvidosa existência que eu levava.
“É inútil andarmos para aqui a passear”, disse Artur em voz alta, claramente incomodado por se encontrar ali. “Este lugar tem mau-olhado, ainda se pega.”
Voltámos no Bentley para a casa de Artur. Quando chegámos, não havia sinal da mulher ou do filho. Num gesto despropositado, dei-lhe um abraço atrapalhado, uma palmada reticente nas costas, a que ele respondeu com outra palmada, forçando um sorriso.
“Tem uma caneta e um papel?”, perguntei-lhe.
O homem entrou na cozinha e regressou com o que lhe pedira. Escrevi o meu nome e número de telefone na pequena folha em branco, e acrescentei uma pequena mensagem: No caso de encontrares este recado. Entreguei a folha a Artur.
“Posso pedir-lhe um favor? Volte a colocar as fotografias no apartado, e deixe lá este papel junto com elas. É o meu telefone de casa.”
“Para quê?”, perguntou Artur, segurando o papel.
Encolhi os ombros.
“Nunca se sabe. Tenho a suspeita de que os fantasmas também sabem fazer telefonemas.”
Nem eu próprio sabia exactamente o que pretendia com aquele gesto. Era impossível dizer se Gustavo alguma vez chegaria a ler o recado, mas alguma coisa me dizia que isso poderia acontecer. Talvez eu quisesse recuperar alguma esperança, ou descobrir, depois da visão apocalíptica da Quinta do Tempo, que restava ainda a possibilidade de alguma ligação ao passado. Porque eu era, na verdade, o único que tinha ficado para trás; o único que, para escapar ao que o futuro guardava, me ausentara da vida.
Meti-me no meu Fiat e, depois de ouvir as indicações de Artur – não saberia chegar ao lugar sozinho – parti quando a noite já descia sobre o mundo. Enganei-me algumas vezes no percurso, voltei atrás, consultei o pequeno mapa que o jardineiro desenhara. E, depois, quando a escuridão já consumira a luz e abraçava os campos, cheguei ao lugar que procurava, reconhecendo-
o, sem surpresa, depois de tanto tempo, por causa da lua: era o mesmo vale mergulhado na vertigem, o astro branco e luminoso suspenso entre dois montes. Saí do carro, pegando numa lanterna, e caminhei pelo campo. Não tinham passado cinco minutos quando, concentrado no foco de luz que me abria caminho por entre terra e arbustos secos, encontrei a árvore junto da qual Tito Puerta fora sepultado.
As árvores sobrevivem à passagem do tempo. A menos que um tremor de terra as engula, nenhum homem é capaz de arrancar uma árvore apenas pelo prazer de o fazer, a menos que queira desbastar o terreno onde ela se encontra, ou seja louco. Aquele terreno parecia intocado há muitos anos, e os loucos não abundam nos campos desertos e por cultivar do Alentejo. Agachei-me junto da cova e, apagando a lanterna e largando-a ao meu lado, enfiei as mãos na terra seca, deixando que os meus dedos penetrassem no interior daquela massa bolorenta e quebradiça. Apenas o céu me iluminava quando comecei a cavar com as mãos, sentindo, de repente, uma aflição do tamanho da eternidade, uma angústia colossal que me trouxe lágrimas aos olhos – tantas lágrimas que, ao final de alguns segundos, era incapaz de ver o que estava a fazer, e a terra saltava por todos os lados, atingindo-me os lábios, os olhos, agarrando-se às minhas roupas, torrões entrando para dentro da minha camisa.
Cavei, cavei e cavei, até os meus dedos estarem em carne viva, até não conseguir mais mover os braços, até a lua me parecer a íris de um deus silencioso e os cadáveres fugirem do meu desespero.»



Comentários

One Response to “Pré-publicação: ‘As Três Vidas’, de João Tordo”

  1. José Cipriano Catarino on Agosto 24th, 2008 22:14

    Muito, muito bom. Não conhecia o autor, mas vou já ao blogue dele procurar mais.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges