Pré-publicação: ‘Deslizamento’

Eis dois pequenos contos de Jorge Listopad, incluídos no livro Deslizamento (QuidNovi), prestes a seguir para as livrarias:

O comboio de Dita

Para Manuel Gusmão

Vivemos nele. Comboio, este comboio é frio, cheio de soldados que estão a voltar às casernas. É um fim de domingo. Nesse compartimento, sou o único que não está fardado. Mais ela, a rapariga pálida de cabelos loiros, sujos. Ou então é a luz na carruagem que lhe cria a palidez e o resto. Na rede, em cima, as caixas e os sacos militares. A porta do compartimento está a abrir-se a fechar-se; entram outros militares, camaradas, com garrafas de cerveja na mão. Parece-me que é Dezembro, princípio de Dezembro.
A rapariga está quieta, e, tal como eu, não sei porque escolheu este compartimento. Talvez porque houvesse nos outros muitas malas em cima dos bancos e nos corredores. E para mim, que não estou fardado, mais perigosos. É pena que não caísse neve para iluminar um pouco a paisagem nocturna, lá fora. Dois soldados estiveram a falar um com o outro, mas já se calaram cansados, meio adormecidos.
Não sei nada. Isto é a guerra? Ou será apenas a sua ameaça? Aparentemente, só aparentemente, estamos sem destino.
– Você também é alemão? – pergunta-me a rapariga. Não sei o que responder, por prudência.
Pergunto à Renée o que vai ela fazer assim grávida. Mas isto já é, evidentemente, outra situação, outra época, noutro país. Não se trata da Renée com quem vivi dois ou três anos, ou mais – é outra Renée, embora parecida com ela.
É o último dia que aqui estou. Tento dar a impressão de um homem tranquilo, que viaja normalmente para outra cidadezinha, perto da fronteira.
C’est impossible – digo eu. – Qu’est-ce qu’on fera? O marido dela está, não está, está a trabalhar. É simpático, dirige uma secção da UNESCO, que ainda está situada na avenida Kléber. – Não se pode brincar com as crias, digo, com algum mau gosto.
Adivinha-se que nos sacos dos soldados, ou pelo menos de alguns, há roupa limpa. Aliás, são matulões lavados, que parecem mais limpos do que é habitual. Mas cheiram a cerveja. Agora não bebem.
Paixão. Vamos estudar juntos Paul Klee. As nossas baixezas são as assimilações às situações. Creio no que estou a dizer. Paris dégueulasse, terra batida e cultura para os outros.
Mas nada disto eu sabia ainda. Na última estação possível desci, tal como eles, os soldados; Dita, a rapariga, nunca mais a vi. Passei ilegalmente a fronteira para a Suíça, entre a morte e a vida.
Foi isto que aconteceu no comboio da Dita, o resto começou depois.
Entre a claridade e as trevas, entre a memória e o esquecimento, pouco espaço.

O cerco de Kafka

A medalha Franz Kafka chegou por correio com outras cartas, encomendas e folhetos. Foi uma surpresa absolutamente inesperada. Fui à janela para verificar se já tinha começado a nevar. Esqueci-me que estava em Lisboa; a última vez que nevou, durante alguns minutos, foi nos anos sessenta. A máquina da meteorologia local é diferente.
Kafka não é um acaso, mas também não é o destino. À primeira vista tenho qualquer coisa em comum com ele, nos lados literário e existencial, e por isso deixou cedo de me interessar. No mundo começaram a acontecer coisas inenarráveis e, assim, passei a confiar apenas na segunda – ou em nenhuma – vista. Evitava Kafka, não como o diabo mas como um vizinho incómodo que partilhasse connosco a mesma varanda. A sua literatura parecia-me impotente,
enferma, friorenta, auto-hipnótica; de ânimo sufocante causado por uma doença imaginária. Filme a preto e branco numa cópia acinzentada. Escrevi sobre ele uma boa porção de artigos informativos e até reflexões e estudos, mas sempre a pedido de outros, redactores e instituições estrangeiras que nos pressentiam ligados por um parentesco. Na área do teatro, dramatizei os seus contos. Quanto menos estudava Kafka, mais sabia sobre ele e reconhecia a sua realidade antipática.
Kafka é o micélio. Aquilo que não se vê. E nós apenas registamos o que, a partir do substrato complexo e oculto, cresce à luz do mundo. Luz do bosque ou luz da cidade gótica. Chamemos-lhe lusco-fusco. Sombra da sombra. Não há muita coisa objectivamente inegável. Como nos icebergues do mar polar: nove décimos vogam na escuridão das águas.
Kafka nasceu demasiado cedo e demasiado tarde. A medalha de ouro, que eu também recebi demasiado cedo e demasiado tarde, tenho-a exposta no soco estreito da lareira, com um seixo em forma de coração que o ano passado encontrei numa praia amada, com um bilhete de comboio para Kolín, com um gancho de cabelo de H., com uma pedra de âmbar onde ficou imobilizado um insecto sem nome e sem tempo, ao lado de uma pequena cruz polaca de madeira de choupo-tremedor. A lareira, no Inverno húmido deste país meridional, de vez em quando aquece-me.
Escrever quer dizer ir confessando e apagando os rastos.



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges