Pré-publicação: ‘O anjo literário’, de Eduardo Halfon (Cavalo de Ferro)

o anjo literário

Eduardo Halfon (n. 1971) é um escritor guatemalteco ainda inédito em Portugal. A meio de Fevereiro, coincidindo com a sua passagem pelas Correntes d’Escritas, a Cavalo de Ferro lançará O anjo literário, conjunto de seis textos breves (a meio caminho entre a ficção e o ensaio) sobre as circunstâncias e as motivações que levaram vários escritores famosos a cair na literatura. Finalista do Prémio Herralde, o livro foi traduzido por Sofia Castro Rodrigues e Virgílio Tenreiro Viseu. A apresentação da obra será feita pelo Pedro Mexia a 18 de Fevereiro (18h30) na Casa Fernando Pessoa.
Em jeito de antecipação, a editora permitiu-nos revelar o início do segundo capítulo (Como a maré):

«Estava numa lavandaria de Iowa City, a ler um conto de Chekov enquanto a roupa dos seus filhos dava voltas em quatro máquinas de lavar. Tivera de se encostar a uma parede; as três únicas cadeiras estavam ocupadas. No tecto, uma ventoinha misturava o calor de Verão com aquele das máquinas de secar. Era final de Agosto, 1964. Estava a suar. Continuava enjoado. Por cima do barulho vertiginoso das máquinas, conseguia ouvir um fundo de música instrumental. Parando à frente dele, uma senhora insultou-o por estar a usar quatro máquinas de lavar ao mesmo tempo. Ele gritou-lhe algo de volta e ela foi-se embora, a resmungar, com as peças de roupa amontoadas numa velha caixa de cartão.
De quando em quando, pegava no lápis que mantinha sobre a orelha e escrevia algumas palavras na primeira página em branco do livro: pensamentos soltos, frases, cenas, ideias para desenvolver mais tarde. Não se lembrava de quando decidira tornar-se escritor. Nem porquê. Porém, sem que disso se apercebesse, tinha afastado a possibilidade de escrever um romance. Para além de não conseguir concentrar-se durante períodos muito longos, achava que os romancistas viviam num mundo que, para eles, tinha sentido. O seu mundo, em contrapartida, era insensato. Passava o mês inteiro a preocupar-se com o pagamento da renda e a manutenção dos filhos. Não havia tempo para grandes narrativas. Só escrevia textos de uma assentada. Poemas. Contos. Depois, durante semanas, reescrevia-os com prazer, dez, quinze, vinte vezes.
Há mais de um ano que estava em Iowa City. Graças ao punhado de escritos que conseguira publicar em algumas revistas literárias, a Universidade de Iowa concedera-lhe uma bolsa para participar no seu famoso Writer’s Workshop. E há mais de um ano que ali estava, enclausurado num canto da sala de aulas, participando em silêncio.
A primeira máquina de lavar acabou.
Colocou a cesta de plástico vermelho à beira da pequena porta e, com o livro de Chekov debaixo do braço, de joelhos, tirou os trapos molhados. Fez a mesma coisa nas outras três máquinas, até acumular uma pequena montanha de cuecas, peúgas e t-shirts infantis que emanavam um repugnante vapor de humidade e sabão.
As máquinas de secar estavam todas ocupadas. Ficou em pé, a ler, a suar, com a cesta vermelha entre as pernas. Tinha de ir buscar os filhos daí a menos de uma hora.

HALFON: Quando é que começaste a escrever, Sergio?
RAMÍREZ: Mais do que a escrever, comecei a desenhar com giz no chão da mercearia do meu pai, em Masatepe, na Nicarágua, aos cinco anos. Eram histórias com argumento, efémeras porque a empregada doméstica as ia apagando com o esfregão atrás de mim. Mas ali, com a cara nos ladrilhos, deixava voar a imaginação.
HALFON: Lembras-te de alguma coisa ou de alguém que te tenha influenciado?
RAMÍREZ: A minha mãe. Talvez não me visse como um escritor de profissão, mas antes como alguém de cuja vida a literatura teria de fazer parte. Aos doze anos, induziu-me a escrever a crónica de uma viagem à praia, “As minhas férias no mar”, que foi publicada na revista do colégio. E com essa
idade, escrevi um sketch radiofónico, pelo qual ganhei duas garrafas de rum Cañita, o meu primeiro prémio literário.
HALFON: Falas de uma crónica que te induziu a escrever, Sergio, mas, haverá outras pontes que ela te tenha estendido para a literatura?
RAMÍREZ: A minha mãe foi educada no Colégio Baptista de Manágua, dirigido por protestantes rigorosos e muito sérios. Parece-me que essa circunstância impôs um travão selectivo às suas próprias leituras enquanto jovem, embora depois, já eu estava longe de casa, se tivesse tornado uma leitora voraz e partilhássemos recomendações de livros. Lembro-me de que uma vez, quando eu tinha catorze anos, ela pegou no livro que eu estava a ler, Os caminhos da liberdade, de Sartre, e, depois de o folhear, me disse que não era recomendável, mas sem mo proibir. Vargas Vila, que tinha uma fama negra de depravado, também a assustava.
HALFON: Existe alguma influência…
RAMÍREZ: Desculpa, Eduardo. Não sei porque é que me esqueci de te mencionar que, nesses anos da minha adolescência, um primo da minha mãe me deu a ler uma cópia dactilografada de A Condessa Gamiani, um livro de excessos e promiscuidades sexuais que, anos depois, descobri que era de Alfred de Musset. A minha mãe teria ficado horrorizada.
HALFON: Existe alguma influência paterna, Sergio, na tua literatura?
RAMÍREZ: O meu pai, pelo contrário, não lia. Com ele, que era comerciante, e com os meus tios músicos, aprendi uma coisa muito valiosa para um escritor: o sentido de humor sem recato. Aprendi a rir-me de mim próprio, como eles faziam.
HALFON: Consegues situar o momento em que decidiste dedicar-te às letras?
RAMÍREZ: Quando, aos dezassete anos, escrevi o meu primeiro conto, “O estudante”. A partir desse momento, soube que acabar um conto, dando-lhe um fim, era saber-se parte de uma confraria de artistas. Depois, três anos mais tarde, saiu o meu primeiro livro, Contos. Já era um caminho sem regresso.

Existe o momento da primeira inspiração literária. O primeiro golpe. Como escritor, suspeito de que todas as pessoas que decidem fazer uma incursão no mundo das letras, sem dúvida, sem dúvida alguma, têm um momento específico de génese literária. Situá-lo é diferente. Dito de outra forma: em que momento é que alguém se torna escritor? Dito ainda de outra forma: em que momento é que alguém é engravidado por esse estranho anseio de narrar, de contar, de escrever, de adoptar as palavras como sua forma de expressão e, em certos casos, seu modus vivendi? Encontrar esse instante e narrá-lo. Encontrar o momento preciso em que uma pessoa qualquer deixa de ser uma virgem literária e começa a fazer amor com as palavras; ou, como me disse um amigo: encontrar o momento da vida de pessoas com tão poucas circunstâncias propícias em que um anjo as sobrevoa e as faz cair na literatura.»



Comentários

One Response to “Pré-publicação: ‘O anjo literário’, de Eduardo Halfon (Cavalo de Ferro)”

  1. Saint-Clair Stockler on Fevereiro 5th, 2008 12:13

    Muito interessante – sobretudo pela escolha dos autores. O autor não é conhecido no Brasil, infelizmente.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges