Pré-publicação: ‘Obra Poética Completa de Edgar Allan Poe’

Em Março, a Tinta da China vai publicar a Obra Poética Completa de Edgar Allan Poe, traduzida por Margarida Vale de Gato. Eis, em antecipação, um dos poemas e uma das várias ilustrações de Filipe Abranches que serão incluídas no livro:

A CIDADE NO MAR

Olhai! A morte ergueu seu alto trono
Numa estranha cidade ao abandono,
Lá longe, onde o Sol morre com langor,
E os bons e os maus, e os piores e os melhores,
Desfrutam nessa terra o eterno sono.
Aí, palácios, templos, coruchéus
(Que o tempo corroeu, mas não estremecem!)
Com nada do que é nosso se parecem.
Em torno, resignadas, sob os céus,
Esquecidas do furor da ventania,
Jazem as águas quedas de apatia.

Do santo céu nenhum raio se esparze
Sobre a noite tão longa da cidade;
Mas no mar medonho há uma luz que arde,
Que as torres silenciosamente invade,
Que trepa aos pináculos, tudo abrasa:
As cúpulas, salões, colunas jónicas,
Os fanos, as paredes babilónicas,
Os canteiros sombrios e esquecidos
De flores de pedra e musgo carcomidos…
Os muitos, muitos templos altaneiros
Em cujos frisos se urdem, reunidas,
A viola, a violeta e a videira.

Esquecidas do furor da ventania
Jazem as vagas quedas de apatia.
E nas sombras se enlaçam torreões
Pelo ar em pendulares oscilações,
Enquanto a morte altiva, na seteira,
Vigia a cidade, sobranceira.

Aí fanos e campas se descobrem,
Abertos como as ondas de luz fátua;
Porém, nem as fortunas que se escondem
Nos olhos diamantinos das estátuas,
Nem os mortos de jóias cumulados,
Fazem vibrar as vagas no seu leito;
Pois nada, ai, perturba o mar sujeito
Àquele seu desterro envidraçado…
Nenhuma escuma indica o movimento
De um outro mar distante, mais dilecto…
Nenhuma crispação sugere o vento
Em mares menos quietos e abjectos.

Mas oh, eis que no ar paira uma brisa!
A onda… qualquer coisa que desliza!
Como se as torres, mansas, sucumbissem,
Repelindo a maré do mar estagnado…
E seus cumes um espaço oco cindissem
Entre as nuvens do Céu envernizado.
As ondas brilham já com mais rubor…
As horas sopram já… brando rumor…
E quando, sem qualquer pranto mundano,
Tal reino for tragado pela voragem,
O Inferno, emergindo soberano,
Prestar-lhe-á sua homenagem.



Comentários

2 Responses to “Pré-publicação: ‘Obra Poética Completa de Edgar Allan Poe’”

  1. Duarte on Março 17th, 2009 1:22

    Rendo-me ao talento da Margarida Vale de Gato

  2. Duarte on Março 17th, 2009 1:36

    de

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges