Primeiras impressões sobre a nova FNAC (Centro Comercial Vasco da Gama)

Assinalando uma década de presença em Portugal, a FNAC abriu hoje ao público a sua 14.ª loja. Numa passagem rápida, ao princípio da noite, confirmei uma evidência: o negócio da FNAC passou a ser a tecnologia, os gadgets electrónicos, os iPods e os telemóveis (que já representam 59% das vendas), ficando os livros e os discos para segundo plano.
No Vasco da Gama, esta mudança de paradigma (chamemos-lhe assim) é ainda mais nítida. Ao entrar no primeiro piso, a parafernália de máquinas cerca-nos por todos os lados, com uma poluição visual tão intensa que quase apaga da memória de quem entra o objectivo que ali o trouxe. Entre os ecrãs de LCD e as ilhas de impressão de fotografias faça-você-mesmo, perguntamo-nos “ora o que é que eu vim aqui fazer?” antes de bater com a mão na testa, “já sei, era para comprar um livro”. E chegar aos livros, ainda por cima mais caros desde que o desconto de 10% ficou guardado apenas para quem tem cartão FNAC, não é mesmo nada fácil. As escadas rolantes para o primeiro piso ficam no outro extremo da loja e, chegados lá acima, é ainda preciso atravessar toda a secção dos discos.
Depois da odisseia, a desilusão final: a oferta continua a estreitar-se. Os best-sellers pululam, a secção de livros estrangeiros é sofrível, a poesia está reduzida a meia bancada (com livros de teatro pelo meio) e uma estante ao canto, quase a pedir desculpa por existir. Por muito que a FNAC Chiado seja uma pálida sombra do que foi nos primeiros tempos, ainda há nela um resquício do projecto inicial. Aqui, já não.
Quanto ao espaço reservado aos eventos culturais, nomeadamente a apresentação de livros, a imagem fala por si:

Meia dúzia de mesas e cadeiras em acrílico vermelho transparente, junto a um pequeno estrado, com um barzinho de apoio. Para quem já esteve nos espaços equivalentes no Chiado e no Colombo, as diferenças saltam à vista. O número de lugares sentados reduz-se a um terço e o isolamento em relação ao resto da loja é muito pior. Como se isto não bastasse, mesmo ao lado ficam as estantes dos livros e DVD’s infantis, o que em momentos de maior afluência não augura nada de bom para quem queira fazer ali, por exemplo, uma sessão de poesia às seis e meia da tarde.



Comentários

20 Responses to “Primeiras impressões sobre a nova FNAC (Centro Comercial Vasco da Gama)”

  1. joao leal on Outubro 13th, 2008 10:25

    sabe, fui um dos membros dessa equipa da fnac que abriu a loja do chiado. Equipa de livreiros como essa, será dificil voltar a existir. Outros tempos, outros tempos…

  2. Luís Fonseca on Outubro 13th, 2008 11:07

    Eu estou com a impressão que o José Mário Silva, deseja ir para administrador da FNAC. Será?!

  3. José Mário Silva on Outubro 13th, 2008 12:52

    AH! AH! AH! LOL!
    Caro Luís Fonseca: essa é a piada do ano, meu amigo. Eu administrador?
    LOL! AH! AH! AH!

  4. Safaa on Outubro 13th, 2008 15:56

    Já tive oportunidade de testar o espaço do auditório da Fnac Vasco da Gama e realmente deixa um pouco (ok, muito) a desejar, embora eles prometam melhorias.

    Mas o que me custou mais foi realmente a diminuição do espaço dedicado a literatura inglesa, já só reduzida a best-sellers e uns quantos clássicos, os velhos de sempre.

    É o novo conceito de loja e que aparentemente veio para ficar. O que começou em finais dos anos 90, com propósitos claramente direccionados para divulgação cultural e literária, tornou-se agora um reflexo do mundo português da edição, com a sua crescente obsessão por best-sellers e tudo o que venda bem…

  5. Mário on Outubro 13th, 2008 16:12

    Não fui lá ainda, mas acho pena que o auditório (tal como o da FNAC Alegro) seja assim tão pequeno. Não estarão a apresentar uma visão muito centrada no especialista em literatura que desejaria uma melhor representação de livros menos populares e mais significativos ?
    Não existe a Amazon e outras similares ? Não existe uma loja on-line nacional (onde já comprei alguns livros que não encontrei nas livrarias físicas) ?
    O estreitamento de que fala pode ser lamentado, mas não há falta de alternativas penso eu. Onde notei esse estreitamente foi na oferta de “world music”, mas mais uma vez, fui procurar noutos vendedores mais especializados e não me incomodeu especialmente com isso.
    Acham que a FNAC deve subsidiar gostos minoritários ? Ela assim o fará se entender que isso pode dar alguma vantagem, se não investe onde tem maior interesse comercial.

    Não m

  6. Safaa on Outubro 13th, 2008 21:06

    Acho que me chateia mais esse estreitamento ter começado só agora, e não logo desde o primeiro dia em que a Fnac abriu em Portugal. Claro que a Fnac não deve subsidiar “gostos minoritários” (embora discorde com este termo), mas uma das características principais que sempre atraiu público à loja era a oferta diversificada para todos os gostos. E nem é tanto o fim do desconto de 10% que me chateia mais (afinal tenho cartão), é mesmo apenas esse estreitamento que se tem imposto e cuja única vantagem tem sido levar pessoas cada vez mais a enveredarem por compras online. Ou será que não? Gostava de saber se isto realmente tem sucedido ou não.

    Eu própria nem preciso do cartão Fnac, tão só porque já não compro lá livros há meses. Os meus livros chegam agora por correio de armazéns de UK ou EUA, livros que me interessam e que de outro modo estariam completamente inacessíveis.

    Espero realmente que todas estas mudanças no mundo editorial e dos livreiros a que temos assistido nos últimos meses venha motivar ainda mais as pessoas a realizarem compras online. Se houvesse suficiente número de compras de edições portuguesas pela net (e não falo de edições estrangeiras, atenção), muitas editoras poderiam sobreviver disso, em vez de se tentarem manter à tona num mercado onde as condições se tornaram quase impossíveis para pequenos e médios editoras, sendo forçadas a fechar.

  7. Teresa on Outubro 14th, 2008 21:38

    Não sei se percebi bem, mas quer dizer que a secção de livros e discos desta nova FNAC fica num primeiro andar e o único acesso são as escadas rolantes?! Em pleno século XXI, acho que não era demais pedir que estas superficies tivessem acessos para quem se desloca em cadeira de rodas, como é o meu caso. Não há por lá um elevadorzito? Se assim for, perderam pelo menos um cliente…

  8. j. on Outubro 15th, 2008 8:57

    também fiz parte dessa equipa inicial do chiado que se manteve até 2005/2006 mais ou menos… costuma dizer-se “on ne change pas une équipe qui gagne” mas parece-me que a politica da fnac não é bem esta…

  9. Despensa : O País Relativo on Outubro 16th, 2008 14:43

    […] propósito do que li sobre a FNAC do Vasco da Gama, fiquei a pensar sobre as possíveis razões para a FNAC do Chiado ter posto os putos para a […]

  10. Pedro Adão e Silva on Outubro 16th, 2008 16:38

    Zé Mário,
    sinceramente o que descreves não me espanta, mas, também, não me preocupa. sou um consumidor em quantidade de cd e livros e, hoje em dia, raramente compro em lojas com existência física. no passado comprava na fnac, hoje compro nas music-wow deste mundo. imagino que não seja caso único, pelo que é natural que as lojas que têm de pagar rendas e mais empregados se vão dirigindo para outros consumidores. é natural que a fnac já não tenha os cd que eu procuro (ou que os secundarize), porque os que procuram os cd que eu compro tendem a comprá-los online, a preços bem mais económicos e com maior escolha (o que é um nicho de consumidores em lx, à escala mundial deixa de o ser). o consumo cultural mudou mt nos últimos anos, a fnac se não se adaptasse às mudanças tenderia a desaparecer. não me sinto de modo algum perdedor neste novo paradigma de que falas. gasto menos e consumo mais e com maior eficácia. o mesmo, imagino, se aplica aos que vão em busca de gadgets à fnac de hoje.
    abraço

  11. José Mário Silva on Outubro 17th, 2008 4:40

    Pedro,

    Eu também não me sinto perdedor neste paradigma e compro online uma parte cada vez mais significativa dos meus livros. Mas nem todas as pessoas têm o mesmo acesso à tecnologia, a cartões de crédito e ao domínio de outras línguas que tu e eu temos.
    Abraço

  12. Pedro Sá on Outubro 17th, 2008 9:23

    Será que esta opção estará relacionada com um diferente perfil da maioria das pessoas que frequentam o Vasco da Gama face ao Chiado e ao Colombo ?

  13. Pedro Sá on Outubro 17th, 2008 9:24

    Ops. Só para receber os comentários no email.

  14. qwerty on Outubro 20th, 2008 9:50

    E por que motivo têm que todas as NOVAS lojas da FNAC ser obrigatoriamente iguais à 1ª?

  15. Assís on Outubro 28th, 2008 1:24

    Trabalhei na Fnac no ínicio e nos meus tempos de estudante. A Fnac de hoje nada tem de semelhante com os seus primeiros tempos. As razões são várias mas principalmente duas: Gente incompetente nos cargos de direcção de departamentos e lojas (as chamadas cunhas) e um franquissimo critério de selecção dos suas colaboradores. Quem trabalha na Fnac sabe que as compras passaram a ser centralizadas muito por causa que quem as fazia na loja ( pessoas sem o minímo conhecimento do produto e do mercado). A Fnac assim não vai longe, para vender tecnologia vai ter que baixar muito o preço. Quem vai à Fnac vai por ser um centro de cultura (era) e não por ser um supermercado (é). Supermercados há muitos e bem mais baratos. Damos baixa cultura ao povinho e ele habitua-se bem a isso, vá de continuar a baixar o nível. Competitividade? Como? Sim um bom índice cultural? Em que mundo? Portugal não pode ir longe…

  16. Assís on Outubro 28th, 2008 1:26

    Trabalhei na Fnac no ínicio e nos meus tempos de estudante. A Fnac de hoje nada tem de semelhante com os seus primeiros tempos. As razões são várias mas principalmente duas: Gente incompetente nos cargos de direcção de departamentos e lojas (as chamadas cunhas) e um franquissimo critério de selecção dos seus colaboradores. Quem trabalha na Fnac sabe que as compras passaram a ser centralizadas muito por causa que quem as fazia na loja ( pessoas sem o minímo conhecimento do produto e do mercado). A Fnac assim não vai longe, para vender tecnologia vai ter que baixar muito o preço. Quem vai à Fnac vai por ser um centro de cultura (era) e não por ser um supermercado (é). Supermercados há muitos e bem mais baratos. Damos baixa cultura ao povinho e ele habitua-se bem a isso, vá de continuar a baixar o nível. Competitividade? Como? Sem um bom índice cultural? Em que mundo? Portugal não pode ir longe…

  17. Pedro Sá on Outubro 28th, 2008 21:28

    Claro, claro, agora uma loja só porque vende livros tem que deixar de pensar no seu negócio porque algumas mentes acham que o gosto dos outros tem que ser educado à sua maneira…se isso não é totalitarismo o que será.

  18. Bibliotecário de Babel – Confirmação on Novembro 5th, 2008 11:04

    […] ver o espaço pela primeira vez, suspeitei logo da viabilidade dos lançamentos de livros na nova FNAC do Centro Comercial Vasco da G…. A Carla Maia de Almeida esteve lá na apresentação do último romance do João Tordo e confirmou […]

  19. anita on Novembro 5th, 2008 14:57

    Podem arranjar as desculpas que quiserem, mas o que é certo é que a Fnac mudou muito… e não me parece que para melhor, já que perdeu aquilo que a diferenciava: ser um oásis de cultura em pleno centro comercial. Nunca ia ao Chiado sem dar um saltinho à Fnac. Agora aquilo está a explodir de gadgets, hits e best sellers! Parece a Worten!

  20. anita on Novembro 5th, 2008 15:04

    ….engano nos meus dados, ops…agora sim…

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges