Primeiras impressões

Ainda é cedo para formar uma opinião sobre a Byblos. Em dia de inauguração solene, com gente a mais e sem ter experimentado as novidades tecnológicas, não foi possível aferir as vantagens e desvantagens do «novo conceito de livraria». Eis de qualquer forma, telegráficas, as minhas primeiras impressões:

Aspectos positivos

  • O espaço. Amplo, bem pensado, com recantos e nichos que criam pequenos habitats autónomos, dentro do ecossistema global da Byblos. Apesar da imensa extensão da loja, nunca sentimos o seu gigantismo. É como se houvesse várias livrarias dentro da livraria.
  • A utilização. É fácil circular e aceder aos livros. A informação está em todo lado (através de plasmas) mas sem ser impositiva. Usando a terminologia informática, este é um modelo user friendly.
  • A oferta. Há muito por onde escolher. Muito mesmo. E o que não fica à vista está no armazém, acessível em poucos minutos (se o prometido fundo editorial funcionar). Para já, fiquei com vontade de explorar melhor a secção dos livros estrangeiros, que me pareceu bem fornecida.
  • O potencial. Quando estiver a funcionar a 100%, a Byblos pode tornar-se um ponto de encontro para quem não se contenta em dar uma vista de olhos nas novidades. E um perigoso sorvedouro para bibliófilos com cartão de crédito.  

Aspectos negativos

  • O acesso. Um dos grandes segredos para o sucesso da Fnac foi o facto de se ter instalado em lugares próximos de estações de metro. A Byblos, pelo contrário, ocupa dois pisos de um edifício na fronteira entre as Amoreiras e Campo de Ourique. Ir para ali de transportes públicos parece-me complicado. Levar carro, idem aspas: faltam lugares de estacionamento nas redondezas e os parques enchem com facilidade (para além de não serem baratos). A haver um calcanhar de Aquiles no projecto, pode muito bem estar aqui.
  • A arrumação. A Byblos foi montada em contra-relógio e isso, na primeira noite, notou-se. Se algumas secções estavam impecáveis, noutras percebia-se que foi tudo colocado nas prateleiras a trouxe-mouxe, na vertigem da urgência. Só um exemplo: na estante dedicada aos livros de crónica, estavam os clássicos gregos, mais o Paraíso Perdido do Milton e o Decameron do Boccaccio. Nada que os ajustes dos próximos dias não possam corrigir.
  • A menorização da poesia. Numa livraria tão grande, como é que se justifica que a poesia (portuguesa e estrangeira) fique limitada a duas estantes, bem menos do que oferecem as Fnacs? Além disso, a um primeiro olhar, faltam autores fundamentais (Herberto Helder, Fiama Hasse Pais Brandão, entre muitos outros), embora pululem por ali dezenas de fraquíssimas edições de autor. Bem sei que no fundo editorial podemos encontrar o que nos interessa, mas as estantes devem ser sempre um espaço nobre para cativar leitores. Como estão, duvido que entusiasmem um único amante de poesia.
  • A importância relativa das secções. Há demasiados best-sellers para o meu gosto, demasiados livros de auto-ajuda e demasiados coffee table books (a ideia é vender, eu sei, mas estes enormes espaços moldados pela ditadura do marketing, com pirâmides de livros por todo o lado, surgem-me como uma forma de poluição visual). Além disso, faz-me espécie ver quatro estantes dedicadas à gestão e duas aos “recursos humanos”, quando a poesia está numa espécie de gueto minúsculo.
  • A iluminação. Julgava que este seria um ponto forte, mas o sistema de focos e pontos de luz pareceu-me mais próximo da atmosfera típica dos centros comerciais do que das livrarias cosy, em que uma pessoa gosta de perder horas a bisbilhotar capas, contracapas, badanas e inícios de capítulos.

Resta a questão central: haverá viabilidade económica para uma mega-livraria que também vende CD’s e DVD’s (estes sem desconto), mas não oferece a parafernália de electrodomésticos e gadgets electrónicos que contribui, em larga medida, para o enorme volume de negócios da Fnac?



Comentários

10 Responses to “Primeiras impressões”

  1. canochinha on Dezembro 14th, 2007 13:39

    Ainda não conheço a livraria, mas à partida a localização parece-me ser um imenso handicap, tal como referido no post. As FNAC já estão num ponto em que são elas próprias a servir de loja-âncora, ou seja, locais onde exista uma FNAC são normalmente bastante frequentados (para além da facilidade de acesso no que ao Metro diz respeito). No caso da Byblos, seria importante estar localizada num sítio com grande movimento, de contrário arrisca-se a que os seus frequentadores sejam apenas pessoas que façam questão de visitar a loja, perdendo assim a oportunidade de angariar novos clientes. Sim, porque eu por exemplo estou a par da inauguração da loja e ansiosa por a visitar, mas há muita gente que desconhece o assunto.

    Já agora, parabéns pelo blog 😉

  2. Blogtailors - Paulo Ferreira on Dezembro 14th, 2007 13:57

    José Mário Silva, confesso que não fiz qualquer compra, pelo que não experimentei o sistema de pagamento.

    Mas sabe se os prognósticos se confirmam, i.e., que até uma altura de 80 cm o cliente passa alegremente com o seu saquinho que a máquina automaticamente faz a conta?

    um abraço
    paulo ferreira.

  3. Byblos - as primeiras impressões de um entendido : TubarãoEsquilo, a rede de blogues com actualidade, informação e notícias on Dezembro 14th, 2007 14:28

    […] Byblos, a maior livraria do país, foi inaugurada quinta-feira em Lisboa. Inevitavelmente, o Bibliotecário de Babel foi lá e recolheu as primeiras […]

  4. João on Dezembro 14th, 2007 22:44

    Depois desta sua apreciação, fico ainda com mais interesse em visitar a Byblos.

    Vamos a ver quando tal será possível, … espero que em breve.

  5. Bill on Dezembro 14th, 2007 22:46

    Ia levantar essa questão sobre a poesia no outro post sobre a Byblos.
    Aqui no Brasil essa “menorização da poesia” é fato real em todas as livrarias, até mesmo Fnac.
    Lamentável, existe uma resistência a poeia, alguns livreiros me dizem por não ser rentável, mas os ditos auto-ajuda estão por todo lado, como erva daninha.

    Fico no aguardo pelo parecer sobre o sistema de localização dos livros x)

    [s]s

  6. gonçalo on Dezembro 17th, 2007 13:48

    Quanto ao problema do acesso. É mais fácil para quem está na Cidade Univeritária deslocar-se à byblos, necessita apenas de fazer a linha amarela de metro e subir a pé a rua das amoreiras, do que, por exemplo, ir à fnac do chiado, onde precisa de mudar de linha de metro.

  7. Byblos : Ponto Sapo on Dezembro 17th, 2007 18:01

    […] Primeiras impressões […]

  8. José Ignacio Martín on Janeiro 3rd, 2008 1:36

    Quanto aos acessos, queria só lembrar que a carreira nº58 da carris serve esta zona convenientemente ligando-a ao Cais do Sodré, Rato, Sete Rios, Benfica.

  9. Bibliotecário de Babel – Livraria Byblos fechou as portas on Novembro 20th, 2008 14:43

    […] não quis. Há menos de um ano, quando a Byblos foi inaugurada com pompa e circunstância, eu já apontava como um potencial calcanhar de Aquiles a localização da loja, completamente fora de mão e sem […]

  10. Bibliotecário de Babel – Razões de um encerramento on Novembro 20th, 2008 14:54

    […] em Inauguração da ByblosBibliotecário de Babel – Livraria Byblos fechou as portas em Primeiras impressõesBibliotecário de Babel – Livraria Byblos fechou as portas em Inauguração da Byblosana em O […]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges