Primeiro dia

Sempre que posso, gosto de visitar livrarias no dia da abertura. Há qualquer coisa no ar que me atrai. Não sei se o entusiasmo dos livreiros, se a impaciência dos livros. Muitas vezes, como dizia o outro no Casablanca, é logo ali que começa uma bela amizade.
Estando por acaso no Príncipe Real ao início da tarde de hoje, decidi espreitar a Poesia Incompleta (R. Cecílio de Sousa), a ver como iam as coisas no primeiro dia. E as coisas iam muito bem. Logo à entrada, do lado direito, à frente de um computador que o mantém ligado ao mundo, fica o deus ex machina do projecto, o ideólogo, o empreendedor, enfim, o gajo que dá o corpo ao manifesto: Mário Guerra, mais conhecido por Changuito, doido por poesia desde sempre, animador das noites do Bar A Barraca em que andam versos à solta por todo o lado, coleccionador fervoroso de raridades (autógrafos, primeiras edições, plaquetes quase secretas, esse tipo de material precioso) e gajo suficientemente louco para achar que uma livraria só de poesia se pode aguentar à bronca. No Porto, é sabido, existe a Poetria, também essencialmente dedicada à poesia mas com um dos pés assente no mundo do teatro. Agora isto, estantes cheias de livros de poesia, estantes cheias dos livros que nunca vendem nada (fora o Herberto, claro, por razões que seria interessante aclarar), agora isto sim, é coisa digna de se ver.
Enquanto espreito as prateleiras e circulo pelas duas salas exíguas, Changuito responde com amabilidade e ironia a uma rapariga de impecável sotaque francês, que entrou à procura de Boris Vian, mais concretamente de J’irai cracher sur vos tombes, do pseudónimo Vernon Sullivan. «Não temos esse, mas temos este», diz Changuito, enquanto retira da estante Canções e Poemas (Assírio & Alvim). A rapariga quer mesmo as cuspidelas nas tumbas e dois minutos depois sai encaminhada para a Letra Livre, ao fundo da Calçada do Combro, «a melhor livraria de Lisboa», mas já agora leva uns cartões para ficarem lá e outros «para dar aos papás» (franceses) ou aos amigos.
Por baixo das fotos enormes de Mário Cesariny («um dia, durante um recital, pediu-me em casamento; quando lhe elogiei a brancura dos cabelos, ele respondeu-me: “se estás a ser sincero, prova-o no altar”), por baixo de um Cesariny lânguido que fuma, Changuito fuma também. Cigarros Camel, americanos. Junto ao teclado do computador, há três maços (dois ainda por abrir). E uma lata de Coca-Cola. E um ovo de chocolate Kinder Surpresa. E pilhas de livros, cujas lombadas os visitantes tentam decifrar, torcendo os pescoços.
Quando Teresa Belo entra na livraria, sorrindo muito, é Ruy Belo que entra também. Changuito mostra o espaço outra vez, amplia o território da conversa, os olhos brilham a falar da Clepsidra, onde fomos dar já nem sei porquê, ou da experiência de estar em Nova Iorque no dia em que Obama venceu, «uma coisa fabulosa». A tarde inclina-se na rua. Fala-se de alfarrabistas e do cuidado que é preciso ter na hora de escrever, a lápis, um preço no canto superior direito da folha de rosto. Por exemplo, o Cobra, do Herberto, é o livro mais caro à venda (500 euros) e há uma razão válida para a exorbitância. Qualquer coisa na esfera do não querer ser comido por parvo. Outros livros, mesmo entre os difíceis de encontrar, são mais acessíveis: «Tenho aí alguns a dois euros e meio.» Há ainda os que não são para vender, porque pertencem à biblioteca de Changuito: «Trouxe-os só para meter raiva aos clientes», diz. E ri-se, o sacana.
Na rua, de tão inclinada, a tarde é já só sombras. Pouco depois de entrar porta dentro um rapaz do Norte que declama poemas «por aí», despeço-me. E o até breve quer mesmo dizer até breve.

Poesia Incompleta (Livros de poesia, novos e esgotados)
R. Cecílio de Sousa, 11.
Aberta de segunda a sábado, das 10h00 às 19h45.



Comentários

6 Responses to “Primeiro dia”

  1. l. on Novembro 26th, 2008 9:10

    provavelmente, em vez de fazer um PPR faço um PPP – plano poupança poesia

  2. Bibliotecário de Babel – Poesia Incompleta no ‘Público’ on Novembro 26th, 2008 10:36

    […] recentes l. em Primeiro diahmmm pois em Ipsis verbisThyssen em Búzios e dedos amputadosTeresa Coutinho em O romance da […]

  3. Lola Montez on Novembro 26th, 2008 13:16

    Nesse espaço funcionou a única livraria gay de Lisboa. Pelos vistos faliu.

  4. a on Novembro 27th, 2008 18:39

    escreve muito bem, mas tem de tirar um curso de fotografia (ou contratar 1)

  5. changuito on Novembro 28th, 2008 11:48

    Cara Lola Montez,
    a primeira livraria gay funcionou mais acima. agora creio que por ali vendem cosméticos.
    cumprimentos,
    changuito

  6. Bibliotecário de Babel – Alice e a «livraria dos poemas» on Dezembro 31st, 2008 17:47

    […] candeeiros. Um pai, uma filha, um guarda-chuva. E a Alice, maravilhada, entrou pela primeira vez na Poesia Incompleta. Fez as perguntas que tinha a fazer, olhou para as fotografias do Cesariny, leu com a Alexandra […]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges