Primeiros parágrafos

Esta é a história de uma derrota. Esta é a derrota de uma história. As minhas mãos tremem. Olho para elas com desconfiança. Já não me servem. Já não me obedecem. Um dia julguei que seriam o instrumento de coisas maiores. Palavras a descerem da cabeça até aos dedos. Ou então uma peça suspensa sobre o tabuleiro, pairando sobre o roque adversário como um falcão. A minha mãe alimentou, talvez desde o útero, os meus sonhos de grandeza. “Vais ser um grande escritor, como o teu avô”, dizia ela. “Ou então um grande xadrezista, como o teu pai.” A minha mãe já não está cá para ver a dimensão do meu falhanço. Morreu quando eu ainda mal sabia desenhar as letras do alfabeto. Desapareceu da minha vida (após meses fechada no quarto, a mirrar de cancro e melancolia) quando eu era apenas mais um pequeno prodígio do xadrez, igual a tantos outros que parecem génios aos seis anos e se afundam na vulgaridade assim que chegam à adolescência.

washington1

Em frente à estátua do presidente Lincoln, um rapaz fotografa a namorada com o iPad. Sorriem os dois, muito. O brilho do ecrã fere a penumbra do memorial. A felicidade alheia, mesmo a falsa, perturba-me. Há demasiado espaço aqui, um vazio que esmaga o visitante, como se não bastasse a brancura imaculada do mármore, o gigantismo da figura, a dizer-nos que somos minúsculos, desprezíveis, indignos do que os heróis do passado nos legaram. No cadeirão, com os braços pousados, Lincoln contempla, por entre as colunas, o imenso plano de água que se estende à sua frente. Nuvens reflectidas, pessoas como formigas ao longo do lago rectangular, na distância o obelisco. Saio para a luz do meio-dia. Ponho a mão em concha à frente dos olhos. É tarde demais para o que vim aqui fazer, sei-o bem. Alguém procura finalmente o bosque que devia ter procurado no tempo certo, mas o tempo certo passou e agora só restam as cinzas do incêndio.

[Início do conto Dupont Circle, a minha contribuição para o antologia Contos Capitais, editada no início deste mês pela Parsifal]



Comentários

Comments are closed.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges