Primeiros parágrafos

«Havia noventa e sete publicitários no hotel e, pelo modo como monopolizavam as linhas de longa distância, a rapariga do 507 teve de esperar do meio-dia até quase às duas e meia para lhe passarem uma chamada. Mas não ficou sem fazer nada. Leu um artigo numa revista feminina de bolso, intitulado “O Sexo é o Paraíso… ou o Inferno”. Lavou o pente e a escova. Tirou a nódoa da saia do fato bege. Mudou o botão da blusa da Saks. Arrancou dois pelos que havia pouco lhe tinham aparecido num sinal. Quando a telefonista finalmente ligou para o quarto, estava sentada no banco da janela e quase a acabar de pôr verniz nas unhas da mão esquerda.
Era daquelas pessoas a quem um telefone a tocar não faz com que larguem tudo. Era como se o telefone dela tivesse estado a tocar continuamente desde que atingira a puberdade.
Pegando no pequeno pincel do verniz, enquanto o telefone tocava, acabou a unha do dedo mindinho, acentuando o con- torno da meia-lua. Colocou então a tampa no frasco de verniz e, levantando-se, agitou a mão esquerda — ainda húmida — de um lado para o outro. Com a mão seca, pegou num cinzeiro a abarrotar do banco da janela e levou-o para a mesinha de cabeceira, onde estava o telefone. Sentou-se numa das camas e — era o quinto ou sexto toque — levantou o auscultador.
— Está — disse ela, mantendo os dedos da mão esquerda esticados e afastados do roupão de seda branca, que era tudo o que tinha vestido, além dos chinelos — deixara os brincos na casa de banho.
— Tenho aqui a sua chamada para Nova Iorque, senhora Glass — disse a telefonista.
— Obrigada — disse a rapariga, e arranjou um lugar para o cinzeiro em cima da mesa de cabeceira.»

[in Nove Histórias, de J. D. Salinger, trad. de José Lima, Quetzal, 2014]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges