Primeiros parágrafos

«Estava sentado no meu escritório, o contrato de arrendamento tinha chegado ao fim e o McKelvey tinha dado início ao processo de despejo. Estava um dia de calor infernal e o ar condicionado estava avariado. Uma mosca arrastava-se pelo tampo da secretária. Estiquei a palma da mão aberta e mandei-a para o galheiro. Limpava a mão à perna direita das calças quando o telefone tocou.
Antendi.
– Eh, estou. – disse eu.
– Costuma ler Céline? – perguntou uma voz feminina.
A voz possuía uma sonoridade sensualíssima. Eu já estava sozinho há algum tempo. Décadas.
– Céline – disse eu –, hummmmm…
– Eu quero o Céline – disse ela. – Tenho de o apanhar.
Aquela voz tão sensual começava realmente a mexer comigo.
– Céline? – disse eu. – Dê-me alguns dados, cara senhora. Vá falando…
– Feche a braguilha – disse ela.
Eu olhei para baixo.
– Como é que percebeu? – perguntei eu.
– Esqueça lá isso. Quero o Céline.
– O Céline está morto.
– Não está nada morto. Gostaria que o encontrasse. Eu quero-o.
– Talvez possa encontrar as ossadas dele.
– Não, seu palerma, ele está vivo!
– Onde?
– Em Hollywood. Ouvi dizer que tem frequentado a livraria do Red Koldowsky.
– Mas então porque é que não vai lá a senhora à procura dele?
– Porque primeiro gostaria de saber se ele será o verdadeiro Céline. Preciso de ter a certeza, uma certeza consistente.
– Mas porque é que recorreu a mim? Há centenas de detectives por essa cidade fora.
– Foi o John Barton quem mo recomendou.
– Ah, o Barton, exacto. Ouça, vou precisar de uma espécie de adiantamento. E teremos de nos encontrar pessoalmente.
– Estarei aí dentro de minutos – disse ela.
E desligou. Eu subi o fecho.
E fiquei à espera.»

[in Pulp, de Charles Bukowski, tradução de Vasco Gato, Alfaguara, 2012]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges