Proeza

Com a compra da Dom Quixote, Miguel Pais do Amaral conseguiu um feito inédito: juntar debaixo do mesmo telhado José Saramago e António Lobo Antunes, dois rivais que à partida se excluem mutuamente. Não deve ser aliás por acaso que o autor de A Ordem Natural das Coisas diz o que diz. As ameaças servem apenas para marcar posição, sublinhar o seu estatuto e exigir tratamento VIP. Mas o fulcro dos receios de Lobo Antunes está nesta frase: “Quero garantias muito claras de que as pessoas que têm trabalhado comigo o continuem a fazer.” Onde se lê “pessoas que têm trabalhado comigo” leia-se Tereza Coelho. Por outro lado, se o romancista defende com unhas e dentes os “seus”, o que só lhe fica bem, lá por baixo esconde-se, parece-me, o receio de ter de partilhar o palco com outros autores de primeira grandeza, nomeadamente aquele que já teve o desplante de lhe roubar o Nobel.



Comentários

3 Responses to “Proeza”

  1. manuel a. domingos on Dezembro 29th, 2007 21:10

    Lobo Antunes ameaça deixar de publicar em Portugal. Fala de coerência editorial e coisas do género. Mas desde quando é que a Dom Quixote tem coerência editorial? Principalmente nos últimos anos. Prometeram a obra completa de Robert Musil: ficaram-se (até agora) por um título. Publicaram Carolina Salgado, Ana Bola, António Sala, Inês Pedrosa, Io Appoloni, Paulo Cardoso, Pecadora, Rita Ferro, Ana Zanatti, Clara Ferreira Alves. Coerência? Afinal até há. Não sei é se Lobo Antunes já reparou nisso.

  2. NSL on Dezembro 31st, 2007 11:30

    Compreendo perfeitamente a posição do ALA, mas não é consentânea com o seu percurso, que o diga o Nelson de Matos que na altura em que precisou só não foi defendido por ele.

    Quanto a Tereza Coelho, é uma situação louvável, mas tendo em conta o currículo recente de sucessos financeiros na D. Quixote – apesar das controvérsia em torno -, só questões de ordem pessoal a levariam a sair.
    Eu, recusav

  3. Bibliotecário de Babel » Blog Archive » O almoço agradável on Janeiro 24th, 2008 13:51

    […] (uma explicação privada, os salamaleques da praxe) e tudo entrou nos eixos. Como insinuei aqui, a intenção de “sair” manifestada pelo autor de Boa Tarde às Coisas Aqui em Baixo […]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges