Qualquer coisa como medo

«O que acontece quando uma pessoa chega ao fim das suas forças? (Não é doença, não é dor, não é infelicidade, é pior.) Numa manhã, ela senta-se diante da sua tenda e olha para lá do rio. No outro lado estão as mulas escondidas pela erva alta da margem. A erva verga-se ao sopro do vento como uma seara, e o vento traz também para o desfiladeiro o fumo que se escapa da porta do tchai-khan. Os coudéis do xá, vindos das pastagens, chegam nos seus cavalos brancos e malhados, já estafados, e com gritos fazem-nos passar a galope os bancos de saibro. O sol do meio-dia é forte e branco. O vento parece arrastá-lo consigo, juntamente com as nuvens e a poeira. Os olhos cansam-se de olhar para cima. Rochedos cinzentos, basalto contra azul, dor sem esperança. Se pousamos por algum tempo o olhar na água negra, rápida, quebrada, sentimos uma vertigem, qualquer coisa como medo.»

[in Morte na Pérsia, de Annemarie Schwarzenbach, trad. de Isabel Castro Silva, Tinta da China, 2008]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges