Quatro micronarrativas de Tonino Guerra

A QUINTA JANELA NO ALTO

Dirigiu, de repente, o olhar para uma das muitas janelas de um prédio. Como se alguém o chamasse. A quinta janela no alto, aberta e vazia. Parou alguns momentos para a contemplar, atraído nem sabia por quê. Nunca ali estivera, nunca frequentara aquelas escadas, com seus estreitos pátios internos.
No dia seguinte, no jornal, leu que uma mulher se havia lançado daquela janela e descobriu que a suicida fora o seu primeiro amor, no tempo em que habitara para os lados de Montesacro.

A FOTOGRAFIA

Uma tarde, no comboio, um homem, de pé, sentiu uma mão tocar-lhe e reparou que um jovem soldado lhe oferecia o seu lugar, como se faz com os velhos. Aceitou, cheio de vergonha, por ser a primeira vez que lhes sucedia e, de olhos perdidos naquela noite que se escapava pelas janelas, de repente, sentiu-se desolado pela sua idade. Depois fechou-se em casa e a sua tristeza trespassava os muros, circulando pelas estradas. Era manhã, quando a carta chegou de uma cidade distante. Abre-a e encontra a fotografia de uma senhora anciã, completamente nua. Nenhum comentário ou assinatura. Mete os óculos para procurar nas velhas feições da mulher se, por acaso, a conhecia. Descobriu que se tratava do único grande amor da sua vida. E, conhecendo a grandeza da sua alma, de imediato percebeu a intenção da mensagem: a mulher, sabendo que ele vivia triste, não se envergonhava de lhe mostrar o próprio corpo, para o fazer perceber que não devia angustiar-se e que os sentimentos são mais fortes do que a carne.

O PAVIMENTO DE NEVE

Quando visitaram a casa, no velho quarteirão da cidade, encontraram Shirikawa já morto de fome, no seu quarto de dormir. O apartamento tinha ainda dois outros aposentos. Ambos sem mobília. No primeiro, estavam apenas três cadeiras negras, de tipo europeu, encostadas à janela, como se alguém estivesse disposto a contar, pela janela, as mil folhas do plátano. Depois percebeu-se que as cadeiras eram dos três magríssimos gatos, companheiros do velho. Na terceira sala, o pavimento apresentava-se coberto por um manto de arroz muito branco. Shirikawa nascera em Chichibu, uma aldeia do Norte do Japão. Desde jovem, durante a procissão para a queda das primeiras neves, tocava um pequeno ko-daiko*.
Porque será que Shirikawa, possuindo todo aquele arroz, se deixara morrer de fome?
Quando o levaram com a liteira, alguém experimentou deitar-se na cama, até assumir a posição exacta do morto. Com a cabeça pousada sobre o travesseiro, para além do corredor, viu o quarto com o pavimento de arroz. Saboreou a doce contemplação da neve pousada, e até a cor de cinza da parede do fundo parecia inverter-se para formar um céu frio e invernal.
Depois de longa investigação no quarteirão, descobriu-se que Shirikawa, desde há alguns anos, sofria com saudades da neve. Aquele era um lugar onde nunca nevava.

* Pequeno instrumento de percussão muito usado no Japão

O ESPELHO

Comprou aquele espelho em Porta Portese. Era oval e a moldura, de madeira clara, tinha uma grinalda de rosas. Colocou-o em cima da cómoda do quarto de dormir. Mas, a primeira vez que o olhou, não viu o seu rosto. Dois senhores apareceram, com vestes do início do século, sorrindo, depois uma mão com um pente e, em seguida, uma parte do quarto de dormir e um rosto de criada. Um raio de sol, e no sol, uma borboleta. Logo depois, enfaixada, uma criança que a senhora segurava para se ver ao espelho. Agora seu marido, trajando de militar. O rosto da mulher que, pouco a pouco, se enche de rugas e seus cabelos que embranquecem. Depois, o filho já crescido, também ele vestido de militar. De novo a mulher sozinha, chorando. Por último, um leito, circundado por candeias, e a mulher morta, com a cabeça segura pelo travesseiro. Quando o espelho acabou de reproduzir aquelas imagens, retidas por tantos anos, apareceu, finalmente, o rosto do homem que o tinha adquirido. Era aquele jovem que víramos enfaixado e depois como jovem militar que agora envelhecera.

[in Histórias para uma Noite de Calmaria, trad. de Mário Rui de Oliveira, Assírio & Alvim, 2002]



Comentários

One Response to “Quatro micronarrativas de Tonino Guerra”

  1. Olinda Gil on Janeiro 21st, 2011 16:46

    Muito obrigada pela sugestão. Ultimamente interessam-me muito as micronarrativas.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges